Prosa o Tempo que nos resta


 O tempo que nos resta 

O tempo que nos resta começa no instante em que abrimos os olhos pela primeira vez. Não chega com fanfarra nem com aviso. Chega quieto, como um segundo coração batendo do lado de fora do peito. Desde aquele primeiro choro, cada minuto já está contado — não por alguém cruel, mas pela própria natureza das coisas que vivem.

Às vezes a gente finge que não sabe. Acorda, toma café, responde mensagens, promete “depois a gente conversa”, “semana que vem a gente se vê”, “quando as coisas acalmarem”. E o tempo, paciente e sem pressa, continua andando. Ele não grita. Só vai sumindo pelas bordas dos dias, como a luz no fim da tarde.

Há quem diga que a vida é curta. Mas curta demais para quê? Para todas as conversas que ficaram pela metade? Para os abraços que adiamos? Para o livro que nunca abrimos, a viagem que sempre ficou “para quando eu puder”, o “eu te amo” que travou na garganta porque o momento nunca parecia certo?

O que resta não é uma quantidade. É uma qualidade. É o jeito como a gente escolhe gastar o que ainda não foi gasto. É olhar no rosto de quem amamos e perceber, de verdade, que aquele rosto também está envelhecendo. É sentar na varanda e deixar o sol esquentar a pele sem culpa. É perdoar mais rápido. É rir mais alto. É chorar quando precisar, sem pedir desculpas pelo choro.

Porque o tempo que sobra não é infinito. E, por isso mesmo, é sagrado. Cada manhã que ainda nos é dada é uma segunda chance disfarçada de rotina. Cada noite em que ainda conseguimos dormir ao lado de alguém  ou sozinhos, em paz é um milagre discreto.

Então talvez a pergunta não seja “quanto tempo ainda nos resta”. Talvez seja: o que vamos fazer com o que ainda temos, enquanto ainda temos?

Porque um dia o relógio vai parar. E o que vai ficar não será a quantidade de dias que vivemos, mas a densidade com que os preenchemos.

Cuide bem do que ainda lhe resta. Não porque o fim está perto. Mas porque o agora é o único lugar onde o tempo ainda é nosso.

Escritora Luzia Couto 

Lei 9.610/98

20/09/26

Ipanema Minas Gerais Brasil

Crônica oa filhos de ninguem

Os Filhos de Ninguém

Na praça central, entre pombos e restos de pipoca, há crianças que parecem não pertencer a ninguém. Dormem em bancos de madeira, acordam com o sol batendo no rosto e carregam, nos pés descalços, a poeira da cidade. São chamadas de "meninos de rua", como se a rua fosse mãe, pai e lar. Mas a rua não acolhe: apenas engole.

O abandono infantil não é obra do acaso. É resultado de políticas públicas que falham, de governos que preferem erguer muros em vez de pontes e de uma sociedade que fecha os olhos para não se sentir cúmplice. Cada criança invisível é um retrato da desigualdade que fingimos não ver.

Enquanto se discute, nos gabinetes, sobre orçamento e prioridades, elas disputam restos de comida com cães vadios. Enquanto se fala em crescimento econômico, elas crescem sem escola, sem afeto e sem futuro. O abandono é coletivo: não é apenas da família que se ausentou, mas de todos nós, que aceitamos a indiferença como rotina.

E, paradoxalmente, são essas crianças que ainda sorriem, que inventam brincadeiras com tampinhas de garrafa, que transformam o nada em esperança. Elas resistem, mas não deveriam precisar resistir. Deveriam viver.

A crônica não é sobre elas; é sobre nós. Porque cada criança abandonada é um espelho da sociedade que escolhe quem merece cuidado e quem pode ser descartado. E, nesse reflexo, o que vemos é a nossa própria falência moral.


Escritora Luzia Couto  

25/03/2026  

Ipanema, Minas Gerais, Brasil

PROSA O QUE O TEMPO LEVA


 Prosa


O Que o Tempo Leva e o Que o Tempo Deixa

A vida tem um costume curioso: enquanto estamos ocupados vivendo, ela passa.

Quando somos crianças, desejamos crescer. Acreditamos que a felicidade mora logo ali, no próximo aniversário, na próxima fase, no próximo sonho realizado. Depois crescemos e começamos a correr. Corremos atrás de trabalho, de contas pagas, de responsabilidades, de objetivos que parecem sempre urgentes.

E, sem perceber, vamos adiando a vida.

Adiamos aquele café com um amigo. Adiamos o abraço nos pais. Adiamos a visita a um irmão. Adiamos o telefonema para alguém que amamos. Sempre encontramos uma justificativa razoável. "Depois eu vou." "Na próxima semana eu faço." "Quando as coisas melhorarem."

Mas o tempo não conhece espera.

Ele segue caminhando silenciosamente pelos corredores da nossa existência, levando dias que não voltam mais.

Um dia olhamos fotografias antigas e percebemos que a criança da imagem já se tornou adulta. Os pais ganharam cabelos brancos. Os filhos cresceram. Algumas pessoas já não estão mais aqui para receber o abraço que ficou para depois.

É nesse momento que compreendemos algo importante: a vida não é feita apenas de grandes acontecimentos.

Ela é feita de pequenas presenças.

São os minutos compartilhados à mesa. As conversas sem pressa. As risadas que surgem sem motivo. Os encontros simples de um final de tarde. Os gestos que parecem comuns, mas que um dia se transformam nas lembranças mais preciosas que carregamos.

O tempo leva muitas coisas.

Leva a juventude, leva oportunidades perdidas, leva pessoas queridas para outros caminhos. Mas ele também deixa algo para quem aprende a observá-lo.

Deixa sabedoria.

Ensina que ninguém é eterno. Que nenhum problema dura para sempre. Que os bens materiais são passageiros. E que as maiores riquezas quase nunca cabem dentro de uma carteira ou de uma conta bancária.

Cabem dentro do coração.

Talvez a grande missão da vida não seja acumular coisas, mas colecionar momentos. Não seja ter tudo, mas valorizar aquilo que temos enquanto ainda está ao nosso alcance.

Porque haverá um dia em que olharemos para trás.

E, nesse instante, não serão os objetos que aquecerão nossa alma.

serão as pessoas que amamos, os abraços que demos, o bem que fizemos e as memórias que construímos.

No fim, o tempo leva quase tudo.

Mas jamais consegue apagar o amor que distribuímos pelo caminho.

Escritora Luzia Couto  

Lei 9.610/98

19/09/2026

Ipanema Minas Gerais Brasil

CRÔNICA O PERFUME QUE ATRAVESSOU MILÊNIOS


 Crônica o perfume que atravessou o tempo

Há mais de três mil anos, nas terras quentes da Assíria, entre o Tigre e o Eufrates, uma mulher caminhava pelos corredores de um palácio com as mãos cheirando a flores e a resinas. Seu nome era Tapputi-Belatekallim — “Tapputi, a senhora do palácio”. Poucos a conheciam pelo nome completo. Para o rei e para as mulheres que trabalhavam ao seu lado, ela era simplesmente Tapputi: a que sabia transformar o invisível em presença.

Não havia laboratórios de vidro, nem balanças de precisão, nem frascos de cristal. Havia apenas tábuas de argila, água do rio, fogo controlado e um olfato que parecia escutar o mundo. Tapputi misturava cártamo, mirra, cálamo, flores e óleos. Destilava. Filtrava. Voltava a destilar. Repetia o gesto até que o líquido se tornasse algo que não era mais planta nem resina, mas memória. Um perfume para o rei, para os deuses, para as estátuas que precisavam ser ungidas nos rituais. Um perfume que atravessava o corpo e ficava no ar, como uma assinatura invisível.

Nas tábuas cuneiformes que sobreviveram ao tempo, seu nome aparece ao lado de listas de ingredientes e de instruções precisas. “Segundo a boca de Tapputi, a muraqqītu”, diz o texto. A muraqqītu: a especialista em aromáticos. Não era apenas uma artesã. Era a líder de um grupo de mulheres que dominavam a arte de extrair essências. Juntas, elas faziam o que hoje chamaríamos de química: separavam, concentravam, transformavam. E faziam isso sob a luz da lua cheia, como se o céu também participasse da fórmula.

Imagine o cheiro daquele palácio. O calor do dia, o suor dos corpos, a poeira das ruas, o cheiro de comida e de animais. E, de repente, o ar muda. Uma nota floral. Uma nota resinosa. Algo que suaviza o excesso e torna o cotidiano mais suportável, quase sagrado. Tapputi não criava apenas fragrâncias. Criava uma forma de presença. Uma maneira de o rei ser lembrado mesmo quando ausente. Uma maneira de os deuses serem honrados pelo olfato, esse sentido tão antigo e tão íntimo.

Séculos depois, quando as tábuas foram desenterradas e traduzidas, o mundo moderno olhou para ela com um misto de surpresa e reconhecimento. “A primeira química da história”, disseram alguns. “A primeira perfumista de quem se tem nome”, disseram outros. Mas talvez a verdade seja mais simples e mais profunda: Tapputi foi uma mulher que, num tempo em que o conhecimento raramente deixava registro escrito, conseguiu gravar na argila o que sabia fazer com as mãos e com o nariz.

Hoje, quando abrimos um frasco de perfume, quase nunca pensamos nela. Pensamos em Grasse, em Paris, em nomes famosos e em campanhas publicitárias. Mas o gesto continua o mesmo: extrair de uma planta o que ela guarda de mais secreto e transformá-lo em algo que se cola à pele e viaja conosco. O gesto de Tapputi atravessou o tempo. Continua vivo cada vez que alguém para, respira fundo e diz: “Este cheiro… eu conheço.”

Talvez o maior perfume que ela tenha criado não esteja em nenhuma fórmula reconstituída por cientistas contemporâneos. Esteja na ideia de que uma mulher, há mais de três milênios, já sabia que o invisível também pode ser permanente. Que o cheiro, esse fantasma doce e passageiro, pode ser a forma mais antiga de deixar uma marca no mundo.

E assim, enquanto o vento sopra sobre as ruínas da Assíria e sobre as cidades modernas que ainda fabricam fragrâncias, o nome de Tapputi paira no ar — discreto, tenaz, como um residual que se recusa a desaparecer.

Escritora Luzia Couto  setembro 26

Poesia Herança de Luz

Herança de luz 

Desde que tua presença recolheu suas velas
e navegou para horizontes que meus olhos não alcançam,
os dias passaram a caminhar
com um silêncio diferente.

As manhãs ainda florescem,
os rios continuam seguindo seu destino,
as estrelas cumprem seus percursos,
mas algo do universo parece guardar
o espaço exato da tua passagem.

Por vezes,
o vento atravessa as cortinas
como um antigo mensageiro
e espalha pelos cômodos da memória

fragrâncias invisíveis,
como se o tempo, generoso,
me enviasse pequenas cartas perfumadas
escritas com tua lembrança.

Ainda escuto melodias perdidas
entre as margens do amanhecer.

São canções que não chegam aos ouvidos,
mas ao coração,
e nelas reencontro a ternura
que embalava as noites
como a lua embala os jardins adormecidos.

As conversas permanecem vivas,
não em palavras,
mas em constelações de instantes
que brilham sob o céu da recordação.

Às vezes sorrio sozinho,
como quem encontra uma estrela antiga
guardada entre páginas do tempo.

Quando a música visita o ar,
as emoções despertam como flores após a chuva.

Então surge teu sorriso,
claro como aurora sobre montanhas,
e teu olhar,
farol dourado que continua iluminando
mares que julgava esquecidos.

As memórias são tesouros raros,
lapidados pela eternidade.

Não pertencem ao passado,
mas a um jardim secreto
onde o afeto floresce sem conhecer inverno.

Ali, encontro tua companhia outra vez,
serena como a luz que permanece
mesmo depois do ocaso.

E quando contemplo
aquilo que restou da matéria,
não vejo fim.

Vejo sementes devolvidas à terra,
vejo pó de estrelas retornando ao céu,
vejo ciclos completando sua travessia.

Porque existem presenças
que o tempo não apaga,
que as estações não levam,
que a distância não alcança.

Presenças que se transformam
em luz dentro da alma.

E tenho a certeza
de que, em qualquer era,
em qualquer amanhecer,
em qualquer curva do infinito,
teu brilho continuará existindo,
como uma constelação discreta
habitando para sempre
os horizontes do meu coração.

Escritora Luzia Couto 
Lei 9.610/98
21/08/2020
Ipanema Minas Gerais Brasil

Poesia Eterno

Eterno 

Porque o infinito
não é apenas o limite dos sonhos:
é o espaço onde o coração
aprende a respirar sem fronteiras,
onde cada batida se alonga
em ecos de eternidade.
Que ele permaneça
como estrela que não conhece o ocaso,
como mar que nunca cansa de voltar à praia,
como verso que se recusa a terminar
na última página.
Que dure além do tempo,
além da saudade,
além de tudo aquilo
que o mundo chama de fim.
Porque o amor verdadeiro
não tem medida:
tem apenas a medida do infinito.

Escritora Luzia Couto
Lei 9.610/98
21/09/26
Ipanema Minas Gerais Brasil 

CRÔNICA

Crônica 

O assento da janela

Toda manhã, no mesmo ponto do centro, o ônibus 472 parava com o mesmo barulho de freio cansado. E toda manhã, Dona Célia entrava com a bolsa preta apertada contra o peito e o cabelo grisalho preso num coque baixo. Tinha setenta e dois anos, pele escura de quem trabalhou a vida inteira sob o sol, e um jeito quieto de ocupar o espaço sem pedir licença.

Naquele dia de terça-feira, o ônibus estava mais cheio que o normal. Célia subiu, passou o cartão e olhou em volta. O único lugar vazio era o da janela, no meio do corredor. Ao lado dele, já sentado, estava um homem de uns cinquenta anos, camisa social clara, pasta de couro no colo. Chamava-se Roberto. Quando Célia se aproximou, ele deslocou o corpo um pouco para o lado, quase imperceptível, e pousou a pasta no banco vazio.

— Com licença — disse ela, educada.

Roberto não respondeu. Apenas olhou pela janela, como se a frase tivesse sido dita para outra pessoa. Célia esperou alguns segundos. Depois, com a voz um pouco mais firme:

— O senhor poderia, por favor, tirar a pasta?

Ele virou o rosto lentamente. Os olhos percorreram o vestido simples de Célia, o cabelo grisalho, as mãos calejadas. Depois, sem pressa, retirou a pasta e a colocou no colo. Não disse “desculpe”. Não disse nada.

Célia sentou. O ônibus andou. O silêncio entre os dois era grosso, quase palpável. Do outro lado do corredor, uma jovem de vinte e poucos anos observava a cena. Chamava-se Luana. Tinha o cabelo crespo solto, a pele morena e o celular na mão, mas não digitava. Só olhava.

Na parada seguinte, um senhor branco, alto, de terno, subiu. Roberto imediatamente se levantou e ofereceu o lugar:

— Fique à vontade, senhor.

O homem agradeceu com um sorriso e se acomodou. Célia continuou olhando pela janela. Luana apertou o celular com mais força.

Mais tarde, no mesmo ônibus, uma criança de uns oito anos, negra, entrou correndo e se agarrou no colo da mãe. A mãe, chamada Simone, puxou o menino para perto e sussurrou:

— Anda, João, não fica no meio do corredor.

Uma senhora de cabelo loiro, sentada mais à frente, resmungou baixo, mas alto o bastante para ser ouvido:

— Essas crianças não têm educação mesmo…

Simone fingiu não escutar. João perguntou, inocente:

— Mãe, por que a senhora falou isso?

Simone apenas apertou a mão do filho e respondeu:

— Não é nada, meu bem. Olha a janela.

Luana desceu três pontos depois. Antes de sair, parou perto de Célia e disse, em voz baixa:

— A senhora não precisa pedir desculpa por existir.

Célia olhou para ela pela primeira vez. Os olhos estavam cansados, mas ainda vivos. Sorriu com um canto da boca, quase imperceptível, e respondeu:

— Eu já aprendi, filha. Mas às vezes a gente cansa de ter que lembrar os outros disso.

O ônibus seguiu. Roberto continuou olhando pela janela, como se nada tivesse acontecido. A senhora loira mexia no celular. Simone apertava a mão de João. E Célia, no assento da janela, respirava o ar quente da cidade, carregando no colo o peso silencioso de todas as pastas que já tinham ocupado o lugar que era dela.

Há preconceitos que gritam. E há outros que apenas ocupam o banco ao lado e fingem que você não está ali.

Escritora Luzia Couto 

Lei 9.610/98

Julho 25

Ipanema Minas Gerais Brasil

 

CONTO O PESCADOR


 O Pescador que Conversava com o Rio

Seu Elias vivia numa casa de madeira à beira de um rio largo e preguiçoso, no interior do Pará. Tinha o rosto marcado pelo sol, as mãos cheias de cicatrizes de anzol e um jeito calmo de quem nunca teve pressa. Pescava desde menino, mas de um modo diferente dos outros.

Enquanto os companheiros puxavam a rede com força e comemoravam cada peixe grande, Elias falava baixo com a água.

— Bom dia, rio — dizia ao chegar. — Vamos ver quem aparece hoje.

E, estranhamente, os peixes respondiam.

Não com palavras humanas, claro. Mas Elias jurava que entendia. Um aruanã grande, de escamas prateadas, costumava se aproximar da canoa e bater a cauda duas vezes quando estava de bom humor. Uma piranha velha, com uma nadadeira torta, vinha reclamar quando a isca estava velha demais. E os cardumes de piabas faziam um barulho miúdo na superfície, como se rissem dele.

Certa manhã, Elias fisgou um peixe pequeno, ainda quase transparente. O bicho se debateu no fundo da canoa, assustado.

— Calma, pequenino — murmurou Elias, segurando-o com cuidado. — Você ainda tem muito rio pela frente.

E, com jeito, devolveu o peixinho à água. O animal ficou parado um instante, como se não acreditasse, e depois sumiu num flash prateado.

Os outros pescadores zombavam.

— Elias solta mais peixe do que traz pra casa!

— Um dia vai morrer de fome conversando com sardinha!

Ele apenas sorria e seguia o seu caminho.

Com o tempo, algo curioso aconteceu. Sempre que Elias lançava a linha, os peixes grandes vinham quase de propósito. Os maiores, os mais pesados, os que davam luta de verdade. Parecia que o rio o recompensava por ter poupado os pequenos. E, nas noites de lua cheia, quando a névoa baixava sobre a água, dava para escutar um murmúrio suave subindo do fundo — como se centenas de peixes sussurrassem juntos:

— Obrigado, Elias…

Anos se passaram. O pescador envelheceu. As mãos tremiam um pouco mais. A canoa ficou marcada de tanto uso. Mas ele nunca deixou de falar com o rio nem de devolver os peixes pequenos.

Certo entardecer, depois de soltar mais um filhote de tucunaré, Elias sentiu uma dor forte no peito. Apoiou-se no remo e olhou a água pela última vez.

— Acho que chegou minha hora, meus amigos…

A superfície do rio se agitou. Dezenas de peixes vieram à tona, formando um círculo ao redor da canoa. O aruanã prateado bateu a cauda devagar. A piranha de nadadeira torta ficou quieta, pela primeira vez. E, no meio de todos, o peixinho que ele soltara tantos anos antes — agora grande e forte — nada até a borda da canoa e tocou o dedo do velho pescador com o focinho.

Elias sorriu.

Quando o encontraram, no dia seguinte, a canoa estava vazia, boiando mansamente no meio do rio. Não havia corpo. Só o chapéu de palha flutuando sobre a água e, ao redor dele, centenas de peixes nadando em silêncio, como se fizessem guarda.

Desde então, os pescadores da região evitam pegar peixes pequenos naquele trecho do rio. Dizem que, se alguém insistir, escuta uma voz baixa saindo da água:

— Deixa ele crescer…

O Elias pediu.

E o rio, fiel ao seu velho amigo, continua respondendo.


Escritora Luzia Couto 

Lei 9.610/98

29/07/26

Ipanema Minas Gerais Brasil

A Lenda do Palhaço das Sombras. Nos tempos antigos, quando os homens ainda não conheciam o riso, o mundo era pesado e silencioso.As noites eram longas, os dias cinzentos, e os corações caminhavam como pedras sem brilho.Foi então que os deuses decidiram criar um guardião da alegria: o Palhaço das Sombras.Ele nasceu com o dom de transformar lágrimas em gargalhadas e dores em poesia.Mas os deuses, temendo que os homens se esquecessem da seriedade da vida, lhe deram também uma maldição:“Tu carregarás em teu peito todas as dores que os outros escondem.E mesmo sangrando por dentro, deverás sorrir por fora, para que o mundo nunca esqueça que o riso é resistência.”Assim, o palhaço caminhava entre vilarejos e cidades.Onde havia tristeza, ele fazia graça; onde havia silêncio, ele criava música; onde havia desespero, ele pintava esperança.Mas à noite, quando as luzes se apagavam e a maquiagem escorria, suas lágrimas caíam como chuva silenciosa.Era o preço de sua missão: doar alegria sem nunca revelar sua própria dor.A lenda conta que, em cada gargalhada sincera, uma ferida do palhaço cicatrizava.E que, quando o público aplaudia com o coração, sua alma se tornava mais leve.Por isso, até hoje, o riso é visto como um ato sagrado: não apenas diversão, mas cura.Os sábios dizem que o Palhaço das Sombras ainda existe, invisível, caminhando entre nós.Ele aparece em cada gesto que arranca um sorriso, em cada brincadeira que ilumina um dia cinzento.E sua lenda ensina: preservar a vida é aprender a rir, mesmo quando o coração sangra, porque o riso é a ponte que nos salva da escuridão.Essa lenda amplia o palhaço como símbolo místico da resistência e da cura através do riso. Escritora Luzia Couto Lei 9.610/9825/06/26Ipanema Minas Gerais Brasil

Crônica

O silêncio dos corredores

Meu nome é João. Tenho oito anos e moro num orfanato. Os corredores são longos e às vezes parecem maiores do que eu consigo imaginar. Cada porta guarda histórias diferentes, mas todas têm algo em comum: a falta de alguém que nos chame de filho.  

O cotidiano

De manhã, acordo com o cheiro do café com leite. Maria, que é como uma irmã mais velha, ajuda a arrumar os pratos. Eu gosto de ler, então sempre carrego um livro. Enquanto os outros correm atrás da bola no pátio, eu fico sentado debaixo da árvore, imaginando que sou o herói da história. Nos livros, os heróis sempre encontram uma família. Eu espero que comigo seja assim também.  

A espera

À tarde, gosto de ficar perto da janela. Vejo a rua e penso que alguém pode aparecer para me chamar pelo nome. Minha amiga Ana desenha casas coloridas com portas abertas. Ela diz que um dia vamos ter uma dessas. Eu sorrio, mas por dentro sinto medo de que isso nunca aconteça.  

O encontro

Numa manhã chuvosa, um casal entrou no orfanato. Não traziam brinquedos, só olhares atentos. Quando disseram meu nome, meu coração bateu forte. Eles disseram que gostaram do meu jeito calmo, da minha curiosidade. Pela primeira vez, senti que alguém me via de verdade.  

A nova casa

Dias depois, saí pela porta do orfanato com meu livro nas mãos. No carro, olhei para trás e vi Ana acenando. Pensei: “Um dia será a vez dela.” Quando chegamos, a porta da nova casa estava aberta, igual aos desenhos de Ana. Entendi que a vida, mesmo cheia de espera, pode escrever capítulos de esperança.  

O novo começo

Quando cheguei à nova casa, tudo parecia diferente. O silêncio dos corredores do orfanato foi trocado pelo som de vozes que me chamavam pelo nome. A porta estava aberta, como nos desenhos da Ana, e eu senti que aquele espaço queria me acolher.  

A adaptação

Nos primeiros dias, eu ainda acordava cedo imaginando o café servido em fila, como no orfanato. Mas aqui havia apenas uma mesa pequena, com três lugares: o meu, o da mamãe e o do papai. Eles perguntavam como eu estava, e eu demorava para responder. Não porque não soubesse, mas porque ainda aprendia a acreditar que alguém realmente queria ouvir.  

À noite, guardava meu livro debaixo do travesseiro, como fazia antes. Só que agora, quando eu lia, havia alguém ao meu lado para comentar a história. Descobri que compartilhar palavras era tão bom quanto inventar mundos sozinho.  

A memória dos que ficaram

Mesmo feliz, eu não esqueci do orfanato. Lembro da Ana e dos desenhos de casas coloridas. Lembro do Pedro e dos livros que ele lia em silêncio. Às vezes, penso que minha alegria só é completa se um dia eles também encontrarem uma porta aberta.  

O futuro

Hoje, quando olho para trás, entendo que a esperança não é apenas esperar, mas acreditar que o amanhã pode ser diferente. Eu encontrei uma família, mas carrego comigo a certeza de que cada criança merece essa chance. E talvez, quando eu crescer, volte ao orfanato — não como morador, mas como alguém que sabe o valor de ser chamado de filho.  


O reencontro

Os anos passaram. João cresceu, estudou, e agora já adulto, caminhava com passos firmes pela mesma rua onde tantas vezes sonhara, olhando pela janela do orfanato. O coração acelerava: não era apenas nostalgia, era a certeza de que precisava voltar.  

Ao entrar, reconheceu o cheiro do café, o som das crianças correndo, e os corredores que pareciam não ter mudado. Mas havia algo diferente: Ana, sua amiga de infância, estava lá. Não mais a menina que desenhava casas coloridas, mas uma jovem mulher, voluntária do orfanato.  

O abraço

Quando os olhos se encontraram, não houve palavras. Apenas um abraço longo, carregado de memórias. Ana sorriu:  
— Eu sabia que você voltaria.  

João respondeu com emoção:  
— E eu sabia que você encontraria sua porta aberta, mesmo que fosse aqui, ajudando outras crianças a sonhar.  

O ciclo da esperança

Naquele momento, João entendeu que a vida não apenas lhe dera uma família, mas também a missão de devolver esperança. Ana, com seus desenhos transformados em gestos concretos, mostrava que a esperança não é só esperar, mas agir.  

E juntos, decidiram que suas histórias não terminariam ali. O orfanato, que um dia fora lugar de espera, agora seria palco de reencontros e de futuros possíveis.  

Escritora Luzia Couto
Lei 9.610/98
25/06/25
Ipanema Minas Gerais Brasil

Poesia Vinho e Lembrança

Vinho & Lembrança  

"Em cada gole, teu nome floresceu."  

Estava com o cristal do vinho entre os dedos,  
quando tua ausência me soprou poesia.  
Lembranças dançaram  delicadas, intensas 
como tardes em que teus braços foram abrigo.  

Minha saudade virou verso,  
meu desejo, brisa que busca teu corpo.  
E o silêncio... ah, o silêncio era teu nome sussurrado  
no fundo da taça.  

Se tu estivesses aqui...  
seríamos chama outra vez 
brasa viva sem adeus.

Escritora Luzia Couto 
Lei 9.610/98
10/06/26
Ipanema Minas Gerais

Crônica Armadilhas do patrão

As armadilhas do patrão
Seu Amadeu era dono de uma fazenda grande no interior de Minas, terra vermelha, cercas altas e um rebanho que impressionava qualquer forasteiro. Tinha o olhar duro e a voz grossa de quem nunca precisou pedir favor a ninguém. Costumava dizer que homem honesto era coisa rara e, quando aparecia, merecia ser testado até o osso.
O empregado mais antigo da fazenda se chamava José. Homem de meia-idade, quieto, de poucas palavras e mãos calejadas. Chegara ali ainda moço e nunca faltara um dia de serviço. Não roubava, não mentia e não falava mal do patrão pelas costas. Isso irritava Seu Amadeu mais do que qualquer preguiçoso.
Certo dia, o fazendeiro chamou José ao escritório.
— José, preciso que você leve esses bois até o pasto novo. Tem um atalho pelo cerrado. É mais rápido.
José conhecia a região como a palma da mão. Sabia que o tal atalho atravessava um brejo traiçoeiro, onde o gado afundava fácil.
— Com licença, seu Amadeu, mas o caminho do brejo não é seguro esta época. Melhor ir pela estrada velha.
O patrão franziu a testa.
— Está me desobedecendo?
— Não, senhor. Só estou dizendo o que sei.
Seu Amadeu engoliu a raiva e mandou outro peão pelo atalho. Dois bois se perderam no lamaçal. O fazendeiro não comentou nada, mas o olhar que lançou a José foi de ódio contido.
Semanas depois, inventou outra prova.
Chamou José de manhã cedo e entregou um envelope grosso.
— Isso é o pagamento dos fornecedores. Leva na cidade e não abre a boca pra ninguém. É dinheiro em espécie.
José foi. No caminho de volta, dois homens o esperavam na estrada, armados de porrete. Claramente mandados pelo patrão para “testar” a honestidade do empregado. José não correu. Parou o cavalo, ergueu as mãos e falou calmo:
— O dinheiro já foi entregue. Podem revirar as algibeiras. Não vai achar nada.
Os homens reviraram mesmo. Não acharam. Voltaram de mãos vazias. Seu Amadeu, ao saber, bateu a porta do escritório com tanta força que o vidro tremeu.
A terceira armadilha foi mais elaborada.
O fazendeiro espalhou o boato de que tinha sumido uma quantia do cofre. Chamou todos os empregados e, na frente de todos, apontou para José.
— Foi você. Só você tinha a chave do escritório ontem à noite.
José ficou em silêncio por alguns segundos. Depois respondeu, sem levantar a voz:
— Seu Amadeu, a chave ficou com o senhor. Eu devolvi antes de ir embora. Tem três testemunhas.
De fato, dois peões e a cozinheira confirmaram. O fazendeiro ficou vermelho de raiva. Inventou uma desculpa qualquer e mandou todos voltarem ao trabalho.
Naquela noite, Seu Amadeu bebeu sozinho na varanda. Não entendia. Quanto mais tentava quebrar o empregado, mais o homem se mantinha firme. Não era medo. Não era bajulação. Era outra coisa, algo que o fazendeiro nunca soubera nomear.
No dia seguinte, chamou José de novo.
— Você acha que é melhor do que os outros, não é?
José tirou o chapéu e olhou nos olhos do patrão.
— Não, senhor. Eu só não consigo ser outra coisa além do que sou.
Seu Amadeu ficou em silêncio longo. Depois, com a voz mais baixa, quase rouca:
— Pode ir.
José se afastou. O fazendeiro ficou olhando a poeira que o peão levantava no caminho. Pela primeira vez em muitos anos, sentiu um peso estranho no peito. Não era raiva. Era outra coisa. Algo parecido com vergonha.
E, naquela noite, Seu Amadeu não conseguiu dormir.

crônica

Não É Porque Eu Não Mereça Que Eu Não Deva Lutar

Lírio nunca acreditou que o destino escrevesse histórias por acaso.

Houve um tempo em que ela imaginava que algumas pessoas entravam em nossa vida apenas para cumprir um breve capítulo. Mas os anos lhe ensinaram que certas almas permanecem conectadas mesmo quando o tempo insiste em separá-las.

O tempo havia seguido seu curso, levando consigo sonhos, planos e caminhos compartilhados. Como rios que nascem próximos e depois correm para margens opostas, ela e aquele que um dia ocupou um lugar especial em seu coração haviam se afastado.

Ainda assim, algo permanecia.

Era uma lembrança silenciosa, uma presença invisível que nunca desapareceu por completo.

Quando a vida decidiu cruzar seus caminhos novamente, Lírio sentiu uma estranha familiaridade. Como quem reencontra uma antiga canção e descobre que ainda sabe cada palavra, cada pausa e cada emoção.

Nada parecia ter sido em vão.

Mas a vida, generosa em alguns momentos e severa em outros, guardava para ela uma prova que jamais imaginou enfrentar.

Numa tarde qualquer, enquanto o riso das crianças ecoava pela casa, algo começou a inquietar seu coração.

Era apenas uma sensação.

Pequena.

Discreta.

Quase imperceptível.

O olhar distante de quem ela amava.

As palavras que já não carregavam a mesma ternura.

O silêncio ocupando espaços que antes pertenciam ao carinho e à cumplicidade.

Lírio tentou afastar os pensamentos. Convenceu-se de que era apenas cansaço, uma fase, um momento passageiro.

Mas certas verdades chegam antes ao coração do que aos olhos.

A vida sólida que acreditava possuir começou a revelar fissuras.

Pequenas rachaduras.

Sinais que anunciavam uma tempestade.

Naquela noite, deitada ao lado daquele que por tanto tempo fora seu porto seguro, ela compreendeu algo doloroso: alguns finais não acontecem de repente.

Eles chegam devagar.

Instalam-se aos poucos.

Como um vidro aparentemente intacto que, por dentro, já carrega a marca da quebra inevitável.

E então a verdade bateu à sua porta.

Silenciosa.

Implacável.

A traição chegou como um vendaval.

Destruiu certezas.

Feriu sonhos.

Espalhou pelo chão os pedaços de uma vida construída com dedicação.

Por algum tempo, Lírio acreditou que jamais conseguiria juntar aqueles cacos.

Mas foi justamente entre os escombros da dor que ela encontrou algo precioso.

Encontrou a si mesma.

Descobriu uma força que desconhecia possuir.

Aprendeu que o amor pode ruir, mas a dignidade permanece.

Aprendeu que a dor não é uma prisão eterna, mas uma estrada que conduz à transformação.

Com o passar dos dias, as lágrimas começaram a secar.

As feridas deixaram de sangrar.

As cicatrizes surgiram, não como marcas de derrota, mas como lembranças da sua capacidade de sobreviver.

Os filhos continuavam ao seu lado.

Eram a luz que iluminava os dias mais difíceis.

Cada sorriso deles se transformava em combustível para que ela continuasse caminhando.

Por eles, mas também por si mesma.

A mulher que antes sustentava a casa por meio de sonhos compartilhados agora erguia um novo lar baseado na verdade.

Sem máscaras.

Sem ilusões.

Sem sombras.

Pouco a pouco, Lírio aprendeu a gostar da própria companhia.

Aprendeu a ouvir o silêncio sem medo.

Aprendeu a recomeçar sem pressa.

E descobriu que há uma paz imensa em não precisar mais mendigar amor de quem não sabe oferecê-lo.

Ela não esqueceu o passado.

As lembranças continuaram ali.

Mas já não eram correntes.

Tornaram-se raízes.

E raízes fortes ajudam as flores a sobreviver às tempestades.

Foi assim que Lírio voltou a florescer.

Mais forte.

Mais consciente.

Mais inteira.

A vida não devolveu exatamente aquilo que lhe tirou.

Deu-lhe algo maior.

Deu-lhe liberdade.

Deu-lhe verdade.

Deu-lhe a oportunidade de reconstruir sua história sem depender das promessas vazias de ninguém.

E, de algum lugar distante, alguém seguia acompanhando sua caminhada com carinho e esperança.

Uma alma que, mesmo longe, mantinha viva uma conexão impossível de explicar.

E desejava, acima de tudo, que a felicidade finalmente a alcançasse.

Que a esperança fosse seu abrigo nos dias difíceis.

Que a alegria caminhasse ao seu lado.

Que o amor verdadeiro encontrasse seu coração no tempo certo.

E que tudo aquilo que a vida lhe havia negado um dia retornasse multiplicado em bênçãos, prosperidade e paz.

Porque algumas mulheres não nascem para permanecer quebradas.

Elas nascem para florescer.

E Lírio era uma delas.

Luzia Couto  
Ipanema, Minas Gerais, Brasil  
23/09/2025

Crônica Fila do Sus

Crônica: O dia em que o SUS quase me transformou em santo
Tudo começou às 5h17 da manhã, quando Dona Neide, 68 anos e paciência de jogador de xadrez, chegou na UBS com a fila já formada. Na frente dela estava Seu Zé, que tossia como se estivesse tentando expulsar um trator do peito, e atrás vinha a jovem Amanda, grávida de oito meses e com cara de quem já tinha desistido de dar nome ao bebê caso o parto acontecesse na fila.
— Bom dia, gente — disse a recepcionista, dona de um sorriso profissional e de um computador que parecia ter nascido no século passado. — Senha?
Dona Neide recebeu o papelzinho: 47.
Amanda, 48.
Seu Zé, que já estava tossindo desde a senha 12, apenas suspirou e murmurou:
— Eu já morri três vezes nessa fila. Na próxima eu volto como fantasma e pego a senha preferencial.
O humor começou cedo. O relógio da parede marcava 7h40 quando a primeira consulta foi chamada. O médico, Dr. Paulo, surgiu com uma caneca de café do tamanho de uma caneca de café e a expressão de quem já tinha visto o apocalipse e voltado só para bater ponto.
— Próximo!
Entra Seu Zé. Sai Seu Zé. Tempo total: 4 minutos e 37 segundos.
Dona Neide contou no relógio do celular.
— Quatro minutos? — reclamou ela baixinho. — Eu levei mais tempo escolhendo o pão na padaria.
Amanda, ao lado, riu pela primeira vez no dia.
— Pelo menos ele saiu andando. Eu já vi gente sair de maca e ainda assim ouvir “próximo!”.
A manhã avançou. A ar-condicionado só funcionava no modo “lembrar que existe”. A senhora da frente começou a contar a história completa da dor no joelho desde 1987. O menino que estava com a mãe tentava entreter o irmãozinho com um aviãozinho de papel feito da senha 53.
Quando finalmente chamaram Dona Neide, já eram 11h20. Ela entrou, sentou, e o médico olhou o prontuário como quem lê um romance longo demais.
— Dona Neide… pressão alta, né? Vamos ajustar o remédio. Tem exame recente?
— Tenho. Fiz há oito meses. Ainda está valendo?
O médico olhou para ela com a mesma expressão que a gente usa quando o elevador para entre andares.
— Oito meses é quase um filho, Dona Neide. Vai precisar refazer.
Ela saiu da sala com a receita na mão e a certeza de que voltaria. Na saída, encontrou Amanda ainda esperando.
— E aí? — perguntou a gestante.
— Me mandaram fazer de novo o exame que eu já fiz. Acho que o SUS está me treinando para a vida eterna. Se eu sobreviver a mais três retornos, virarei santa.
Amanda riu alto. Seu Zé, que tinha voltado porque “esqueceu de pedir o xarope”, completou:
— Eu já pedi pra me enterrar com a carteirinha do SUS. Assim, se tiver fila no céu, eu já chego com preferência.
No final da manhã, a UBS continuava lotada, o ar ainda quente e o computador da recepção travado de novo. Mas, entre uma reclamação e outra, alguém ofereceu água, outra pessoa emprestou o carregador, e a mãe do menino do aviãozinho de papel dividiu biscoito com quem estava perto.
Porque, no meio de toda a demora, da burocracia e do cansaço, o SUS ainda é feito de gente. Gente que espera, gente que atende, gente que erra, gente que tenta. E, de vez em quando, gente que consegue rir de si mesma enquanto segura a senha 47 como se fosse um bilhete de loteria.
Dona Neide saiu andando devagar, receita na bolsa e um sorriso torto no rosto.
— Próxima vez eu trago cadeira de praia — murmurou.
E, de algum lugar da fila, alguém respondeu:
— Traz guarda-sol também. A gente transforma isso aqui em resort.

Escritora Luzia Couto 
Lei 9.610/98
30/08/26
Ipanema Minas Gerais Brasil 

Fábula

A Fábula do Bode e da Onça
Numa floresta grande e verde, vivia uma onça orgulhosa e forte.
Ela se achava a dona de tudo e dizia para os outros animais:
— Ninguém é mais esperto nem mais poderoso do que eu!
Certo dia, a onça encontrou um bode pastando tranquilamente perto de um rio.
— Ei, bode! — rugiu a onça. — Sai daqui! Este lugar é meu!
O bode levantou a cabeça com calma e respondeu:
— Bom dia, onça. Eu só estava comendo um pouco de grama. Não pretendo ficar muito tempo.
A onça riu alto:
— Você é pequeno e fraco. Eu poderia te pegar com uma só pata!
O bode não se assustou. Olhou para a onça e disse:
— É verdade que você é forte. Mas a força não é a única coisa importante. Às vezes, a inteligência e a calma valem mais.
A onça ficou irritada:
— Então prove! Vamos ver quem consegue atravessar esse rio perigoso primeiro. Quem chegar do outro lado vence!
O rio era largo, com correnteza forte e pedras escorregadias. A onça, confiante, saltou na água e começou a nadar com força. Mas a correnteza a puxava, e ela gastava muita energia brigando contra a água.
O bode, por sua vez, observou o rio com atenção. Encontrou um trecho mais raso, onde as pedras formavam um caminho quase natural. Com passos firmes e cuidadosos, foi atravessando de pedra em pedra, sem pressa.
Quando a onça finalmente chegou do outro lado, cansada e molhada, encontrou o bode já esperando, calmo e seco.
— Como você chegou primeiro? — perguntou a onça, surpresa.
O bode sorriu:
— Eu não lutei contra o rio. Eu o respeitei e usei o caminho que ele mesmo oferecia. A força é importante, mas a inteligência e a paciência também são.
A onça ficou em silêncio por um momento. Pela primeira vez, baixou a cabeça e disse:
— Você tem razão, bode. Eu aprendi uma lição hoje. A força sem sabedoria pode nos fazer perder.
A partir daquele dia, a onça e o bode se tornaram amigos. A onça aprendeu a ouvir mais e a respeitar os outros animais, e o bode ganhou a proteção de uma grande amiga.

Moral da história:
A força é valiosa, mas a inteligência, a calma e o respeito são ainda mais poderosos. Quem sabe usar bem o que tem, sempre encontra o melhor caminho.

Escritora Luzia Couto 
10/08/26
Lei 9.610/98
Ipanema Minas Gerais Brasil 

Crônica São Crianças


 Crônica

Elas não são “especiais”. São crianças.

Todo dia, em alguma sala de aula, em alguma fila de supermercado, em alguma sala de espera de consultório, alguém aponta e diz baixinho: “É especial”.
A palavra cai como um carimbo. Parece carinho, mas muitas vezes funciona como cerca.
Por trás do rótulo há um menino que não consegue ficar quieto porque o corpo dele grita mais alto que as regras. Há uma menina que cobre os ouvidos quando o recreio explode em gritos, porque o mundo chega até ela sem filtro. Há o adolescente que fala sozinho, não por falta de companhia, mas porque as palavras lá dentro são demais e precisam sair de algum jeito.
Eles não são “especiais”. São portadores de transtornos que a ciência já nomeou: autismo, TDAH, transtorno de ansiedade, dislexia, e tantos outros. Mas o nome científico raramente chega primeiro. O que chega primeiro é o olhar de pena, a exclusão educada, a fila separada, o “ele não consegue mesmo”.
As necessidades dessas crianças não são luxo. São urgência.
Elas precisam de adultos que parem de medir o valor delas pela capacidade de se encaixar num molde. Precisam de professores que entendam que silêncio forçado não é aprendizado e que movimento não é desrespeito. Precisam de escolas que ofereçam tempo, espaço e métodos diferentes, sem transformar a diferença em castigo.
Em casa, precisam de pais que consigam respirar sem culpa. Pais que ouçam “seu filho é especial” e respondam, com firmeza e amor: “Meu filho tem um transtorno e tem direito a tudo o que qualquer outra criança tem: respeito, oportunidades e a chance de errar sem ser definido pelo erro”.
No recreio, na rua, no aniversário da turma, elas precisam de colegas que não riam do jeito diferente de falar, de andar, de sentir. Precisam de brincadeiras que incluam, não de solidão disfarçada de “ele prefere ficar sozinho”.
E, acima de tudo, precisam ser vistas além do diagnóstico.
Porque o menino que balança as mãos também sonha.
A menina que evita o olhar também ama.
O adolescente que explode em crises também sente medo de ser rejeitado.
Não se trata de heroísmo. Não se trata de “anjos especiais”. Trata-se de infância. De direito a ser criança antes de ser laudo. De direito a ter dificuldades sem perder a dignidade.
Quando a gente para de taxá-las e começa a enxergá-las, alguma coisa muda.
A sala de aula respira melhor.
A família se sente menos sozinha.
E a criança, finalmente, deixa de carregar o peso de ser “especial”
para simplesmente poder ser quem ela é.

Luzia Couto 22/09/26

Crônica A porta da igreja


 Crônica: A porta da igreja

Todo domingo, às onze horas, a Igreja de Nossa Senhora da Esperança abria as portas com o mesmo som de madeira antiga. O padre Antônio subia ao altar, ajeitava o microfone e começava a missa com a voz firme de quem já repetiu as mesmas palavras mil vezes. Na primeira fila, quase sempre, estava Dona Helena. Cabelo branco, terço enrolado nos dedos, bíblia de capa de couro no colo. Ela conhecia de cor todos os salmos e corrigia, em voz baixa, quem errava a resposta da assembleia.
Atrás dela, no fundo da igreja, sentava-se Seu Joaquim. Homem quieto, mãos calejadas, camisa surrada. Raramente falava. Apenas escutava, a cabeça baixa, como se as palavras entrassem nele de um jeito diferente.
Naquele domingo, depois da comunhão, o padre falou sobre o amor ao próximo. Disse que a fé sem obras é morta. Disse que amar o irmão é a prova verdadeira de quem crê. Dona Helena assentiu com vigor, batendo levemente no peito. Vários fiéis murmuraram “amém”. Seu Joaquim apenas continuou olhando para o chão.
Quando a missa terminou, o povo começou a sair. Na calçada, encostado no muro da igreja, estava um homem magro, de uns quarenta anos, com uma sacola plástica na mão e o olhar cansado. Chamava-se Marcos. Pediu esmola em voz baixa, quase envergonhado:
— Um trocado, por favor… só pra comer.
Dona Helena passou por ele com o terço ainda na mão. Não parou. Não olhou. Apenas apertou a bolsa contra o corpo e murmurou para a amiga que vinha ao lado:
— Esses aí só querem aproveitar. Tem que trabalhar.
A amiga, chamada Tereza, concordou:
— É verdade. E ainda ficam na porta da igreja… falta de vergonha.
Mais adiante, um grupo de jovens que tinha cantado no coral também passou. Um deles, Pedro, falou alto o bastante para ser ouvido:
— Eu tenho fé, mas não sou otário.
Marcos baixou a cabeça. Continuou ali, imóvel.
Foi então que Seu Joaquim saiu pela porta lateral. Parou na frente de Marcos, tirou do bolso uma nota dobrada e a colocou na mão dele, sem dizer quase nada:
— Vai lá no bar do seu Zé. Pede um prato feito. Fala que eu mandei.
Marcos levantou os olhos, surpreso. Joaquim apenas fez um gesto leve com a cabeça e seguiu andando, como quem não tinha feito nada de especial.
Do outro lado da rua, Dona Helena ainda conversava sobre a homilia.
— Bonita a palavra de hoje, não foi? — dizia ela. — A gente precisa ter mais fé neste mundo.
Tereza assentiu:
— Muita fé. O mundo está perdido.
Nenhuma das duas viu Seu Joaquim atravessar a rua. Nenhuma das duas viu Marcos entrar no bar do seu Zé com a nota na mão. E nenhuma das duas percebeu que, enquanto falavam de fé, o amor ao próximo tinha acabado de passar quieto por elas, sem fazer barulho, sem pedir aplauso, sem precisar de microfone.
Às vezes a fé sobe ao altar e fala alto.
Outras vezes, ela apenas coloca uma nota na mão de alguém e continua andando.  Luzia Couto 22/09/26

Publicado em 22

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