Crônica: A porta da igreja
Todo domingo, às onze horas, a Igreja de Nossa Senhora da Esperança abria as portas com o mesmo som de madeira antiga. O padre Antônio subia ao altar, ajeitava o microfone e começava a missa com a voz firme de quem já repetiu as mesmas palavras mil vezes. Na primeira fila, quase sempre, estava Dona Helena. Cabelo branco, terço enrolado nos dedos, bíblia de capa de couro no colo. Ela conhecia de cor todos os salmos e corrigia, em voz baixa, quem errava a resposta da assembleia.
Atrás dela, no fundo da igreja, sentava-se Seu Joaquim. Homem quieto, mãos calejadas, camisa surrada. Raramente falava. Apenas escutava, a cabeça baixa, como se as palavras entrassem nele de um jeito diferente.
Naquele domingo, depois da comunhão, o padre falou sobre o amor ao próximo. Disse que a fé sem obras é morta. Disse que amar o irmão é a prova verdadeira de quem crê. Dona Helena assentiu com vigor, batendo levemente no peito. Vários fiéis murmuraram “amém”. Seu Joaquim apenas continuou olhando para o chão.
Quando a missa terminou, o povo começou a sair. Na calçada, encostado no muro da igreja, estava um homem magro, de uns quarenta anos, com uma sacola plástica na mão e o olhar cansado. Chamava-se Marcos. Pediu esmola em voz baixa, quase envergonhado:
— Um trocado, por favor… só pra comer.
Dona Helena passou por ele com o terço ainda na mão. Não parou. Não olhou. Apenas apertou a bolsa contra o corpo e murmurou para a amiga que vinha ao lado:
— Esses aí só querem aproveitar. Tem que trabalhar.
A amiga, chamada Tereza, concordou:
— É verdade. E ainda ficam na porta da igreja… falta de vergonha.
Mais adiante, um grupo de jovens que tinha cantado no coral também passou. Um deles, Pedro, falou alto o bastante para ser ouvido:
— Eu tenho fé, mas não sou otário.
Marcos baixou a cabeça. Continuou ali, imóvel.
Foi então que Seu Joaquim saiu pela porta lateral. Parou na frente de Marcos, tirou do bolso uma nota dobrada e a colocou na mão dele, sem dizer quase nada:
— Vai lá no bar do seu Zé. Pede um prato feito. Fala que eu mandei.
Marcos levantou os olhos, surpreso. Joaquim apenas fez um gesto leve com a cabeça e seguiu andando, como quem não tinha feito nada de especial.
Do outro lado da rua, Dona Helena ainda conversava sobre a homilia.
— Bonita a palavra de hoje, não foi? — dizia ela. — A gente precisa ter mais fé neste mundo.
Tereza assentiu:
— Muita fé. O mundo está perdido.
Nenhuma das duas viu Seu Joaquim atravessar a rua. Nenhuma das duas viu Marcos entrar no bar do seu Zé com a nota na mão. E nenhuma das duas percebeu que, enquanto falavam de fé, o amor ao próximo tinha acabado de passar quieto por elas, sem fazer barulho, sem pedir aplauso, sem precisar de microfone.
Às vezes a fé sobe ao altar e fala alto.
Outras vezes, ela apenas coloca uma nota na mão de alguém e continua andando. Luzia Couto 22/09/26
Publicado em 22
