O Pescador que Conversava com o Rio
Seu Elias vivia numa casa de madeira à beira de um rio largo e preguiçoso, no interior do Pará. Tinha o rosto marcado pelo sol, as mãos cheias de cicatrizes de anzol e um jeito calmo de quem nunca teve pressa. Pescava desde menino, mas de um modo diferente dos outros.
Enquanto os companheiros puxavam a rede com força e comemoravam cada peixe grande, Elias falava baixo com a água.
— Bom dia, rio — dizia ao chegar. — Vamos ver quem aparece hoje.
E, estranhamente, os peixes respondiam.
Não com palavras humanas, claro. Mas Elias jurava que entendia. Um aruanã grande, de escamas prateadas, costumava se aproximar da canoa e bater a cauda duas vezes quando estava de bom humor. Uma piranha velha, com uma nadadeira torta, vinha reclamar quando a isca estava velha demais. E os cardumes de piabas faziam um barulho miúdo na superfície, como se rissem dele.
Certa manhã, Elias fisgou um peixe pequeno, ainda quase transparente. O bicho se debateu no fundo da canoa, assustado.
— Calma, pequenino — murmurou Elias, segurando-o com cuidado. — Você ainda tem muito rio pela frente.
E, com jeito, devolveu o peixinho à água. O animal ficou parado um instante, como se não acreditasse, e depois sumiu num flash prateado.
Os outros pescadores zombavam.
— Elias solta mais peixe do que traz pra casa!
— Um dia vai morrer de fome conversando com sardinha!
Ele apenas sorria e seguia o seu caminho.
Com o tempo, algo curioso aconteceu. Sempre que Elias lançava a linha, os peixes grandes vinham quase de propósito. Os maiores, os mais pesados, os que davam luta de verdade. Parecia que o rio o recompensava por ter poupado os pequenos. E, nas noites de lua cheia, quando a névoa baixava sobre a água, dava para escutar um murmúrio suave subindo do fundo — como se centenas de peixes sussurrassem juntos:
— Obrigado, Elias…
Anos se passaram. O pescador envelheceu. As mãos tremiam um pouco mais. A canoa ficou marcada de tanto uso. Mas ele nunca deixou de falar com o rio nem de devolver os peixes pequenos.
Certo entardecer, depois de soltar mais um filhote de tucunaré, Elias sentiu uma dor forte no peito. Apoiou-se no remo e olhou a água pela última vez.
— Acho que chegou minha hora, meus amigos…
A superfície do rio se agitou. Dezenas de peixes vieram à tona, formando um círculo ao redor da canoa. O aruanã prateado bateu a cauda devagar. A piranha de nadadeira torta ficou quieta, pela primeira vez. E, no meio de todos, o peixinho que ele soltara tantos anos antes — agora grande e forte — nada até a borda da canoa e tocou o dedo do velho pescador com o focinho.
Elias sorriu.
Quando o encontraram, no dia seguinte, a canoa estava vazia, boiando mansamente no meio do rio. Não havia corpo. Só o chapéu de palha flutuando sobre a água e, ao redor dele, centenas de peixes nadando em silêncio, como se fizessem guarda.
Desde então, os pescadores da região evitam pegar peixes pequenos naquele trecho do rio. Dizem que, se alguém insistir, escuta uma voz baixa saindo da água:
— Deixa ele crescer…
O Elias pediu.
E o rio, fiel ao seu velho amigo, continua respondendo.
Escritora Luzia Couto
Lei 9.610/98
29/07/26
Ipanema Minas Gerais Brasil
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