As armadilhas do patrão
Seu Amadeu era dono de uma fazenda grande no interior de Minas, terra vermelha, cercas altas e um rebanho que impressionava qualquer forasteiro. Tinha o olhar duro e a voz grossa de quem nunca precisou pedir favor a ninguém. Costumava dizer que homem honesto era coisa rara e, quando aparecia, merecia ser testado até o osso.
O empregado mais antigo da fazenda se chamava José. Homem de meia-idade, quieto, de poucas palavras e mãos calejadas. Chegara ali ainda moço e nunca faltara um dia de serviço. Não roubava, não mentia e não falava mal do patrão pelas costas. Isso irritava Seu Amadeu mais do que qualquer preguiçoso.
Certo dia, o fazendeiro chamou José ao escritório.
— José, preciso que você leve esses bois até o pasto novo. Tem um atalho pelo cerrado. É mais rápido.
José conhecia a região como a palma da mão. Sabia que o tal atalho atravessava um brejo traiçoeiro, onde o gado afundava fácil.
— Com licença, seu Amadeu, mas o caminho do brejo não é seguro esta época. Melhor ir pela estrada velha.
O patrão franziu a testa.
— Está me desobedecendo?
— Não, senhor. Só estou dizendo o que sei.
Seu Amadeu engoliu a raiva e mandou outro peão pelo atalho. Dois bois se perderam no lamaçal. O fazendeiro não comentou nada, mas o olhar que lançou a José foi de ódio contido.
Semanas depois, inventou outra prova.
Chamou José de manhã cedo e entregou um envelope grosso.
— Isso é o pagamento dos fornecedores. Leva na cidade e não abre a boca pra ninguém. É dinheiro em espécie.
José foi. No caminho de volta, dois homens o esperavam na estrada, armados de porrete. Claramente mandados pelo patrão para “testar” a honestidade do empregado. José não correu. Parou o cavalo, ergueu as mãos e falou calmo:
— O dinheiro já foi entregue. Podem revirar as algibeiras. Não vai achar nada.
Os homens reviraram mesmo. Não acharam. Voltaram de mãos vazias. Seu Amadeu, ao saber, bateu a porta do escritório com tanta força que o vidro tremeu.
A terceira armadilha foi mais elaborada.
O fazendeiro espalhou o boato de que tinha sumido uma quantia do cofre. Chamou todos os empregados e, na frente de todos, apontou para José.
— Foi você. Só você tinha a chave do escritório ontem à noite.
José ficou em silêncio por alguns segundos. Depois respondeu, sem levantar a voz:
— Seu Amadeu, a chave ficou com o senhor. Eu devolvi antes de ir embora. Tem três testemunhas.
De fato, dois peões e a cozinheira confirmaram. O fazendeiro ficou vermelho de raiva. Inventou uma desculpa qualquer e mandou todos voltarem ao trabalho.
Naquela noite, Seu Amadeu bebeu sozinho na varanda. Não entendia. Quanto mais tentava quebrar o empregado, mais o homem se mantinha firme. Não era medo. Não era bajulação. Era outra coisa, algo que o fazendeiro nunca soubera nomear.
No dia seguinte, chamou José de novo.
— Você acha que é melhor do que os outros, não é?
José tirou o chapéu e olhou nos olhos do patrão.
— Não, senhor. Eu só não consigo ser outra coisa além do que sou.
Seu Amadeu ficou em silêncio longo. Depois, com a voz mais baixa, quase rouca:
— Pode ir.
José se afastou. O fazendeiro ficou olhando a poeira que o peão levantava no caminho. Pela primeira vez em muitos anos, sentiu um peso estranho no peito. Não era raiva. Era outra coisa. Algo parecido com vergonha.
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