Os Filhos de Ninguém
Na praça central, entre pombos e restos de pipoca, há crianças que parecem não pertencer a ninguém. Dormem em bancos de madeira, acordam com o sol batendo no rosto e carregam, nos pés descalços, a poeira da cidade. São chamadas de "meninos de rua", como se a rua fosse mãe, pai e lar. Mas a rua não acolhe: apenas engole.
O abandono infantil não é obra do acaso. É resultado de políticas públicas que falham, de governos que preferem erguer muros em vez de pontes e de uma sociedade que fecha os olhos para não se sentir cúmplice. Cada criança invisível é um retrato da desigualdade que fingimos não ver.
Enquanto se discute, nos gabinetes, sobre orçamento e prioridades, elas disputam restos de comida com cães vadios. Enquanto se fala em crescimento econômico, elas crescem sem escola, sem afeto e sem futuro. O abandono é coletivo: não é apenas da família que se ausentou, mas de todos nós, que aceitamos a indiferença como rotina.
E, paradoxalmente, são essas crianças que ainda sorriem, que inventam brincadeiras com tampinhas de garrafa, que transformam o nada em esperança. Elas resistem, mas não deveriam precisar resistir. Deveriam viver.
A crônica não é sobre elas; é sobre nós. Porque cada criança abandonada é um espelho da sociedade que escolhe quem merece cuidado e quem pode ser descartado. E, nesse reflexo, o que vemos é a nossa própria falência moral.
Escritora Luzia Couto
25/03/2026
Ipanema, Minas Gerais, Brasil
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