Crônica
O assento da janela
Toda manhã, no mesmo ponto do centro, o ônibus 472 parava com o mesmo barulho de freio cansado. E toda manhã, Dona Célia entrava com a bolsa preta apertada contra o peito e o cabelo grisalho preso num coque baixo. Tinha setenta e dois anos, pele escura de quem trabalhou a vida inteira sob o sol, e um jeito quieto de ocupar o espaço sem pedir licença.
Naquele dia de terça-feira, o ônibus estava mais cheio que o normal. Célia subiu, passou o cartão e olhou em volta. O único lugar vazio era o da janela, no meio do corredor. Ao lado dele, já sentado, estava um homem de uns cinquenta anos, camisa social clara, pasta de couro no colo. Chamava-se Roberto. Quando Célia se aproximou, ele deslocou o corpo um pouco para o lado, quase imperceptível, e pousou a pasta no banco vazio.
— Com licença — disse ela, educada.
Roberto não respondeu. Apenas olhou pela janela, como se a frase tivesse sido dita para outra pessoa. Célia esperou alguns segundos. Depois, com a voz um pouco mais firme:
— O senhor poderia, por favor, tirar a pasta?
Ele virou o rosto lentamente. Os olhos percorreram o vestido simples de Célia, o cabelo grisalho, as mãos calejadas. Depois, sem pressa, retirou a pasta e a colocou no colo. Não disse “desculpe”. Não disse nada.
Célia sentou. O ônibus andou. O silêncio entre os dois era grosso, quase palpável. Do outro lado do corredor, uma jovem de vinte e poucos anos observava a cena. Chamava-se Luana. Tinha o cabelo crespo solto, a pele morena e o celular na mão, mas não digitava. Só olhava.
Na parada seguinte, um senhor branco, alto, de terno, subiu. Roberto imediatamente se levantou e ofereceu o lugar:
— Fique à vontade, senhor.
O homem agradeceu com um sorriso e se acomodou. Célia continuou olhando pela janela. Luana apertou o celular com mais força.
Mais tarde, no mesmo ônibus, uma criança de uns oito anos, negra, entrou correndo e se agarrou no colo da mãe. A mãe, chamada Simone, puxou o menino para perto e sussurrou:
— Anda, João, não fica no meio do corredor.
Uma senhora de cabelo loiro, sentada mais à frente, resmungou baixo, mas alto o bastante para ser ouvido:
— Essas crianças não têm educação mesmo…
Simone fingiu não escutar. João perguntou, inocente:
— Mãe, por que a senhora falou isso?
Simone apenas apertou a mão do filho e respondeu:
— Não é nada, meu bem. Olha a janela.
Luana desceu três pontos depois. Antes de sair, parou perto de Célia e disse, em voz baixa:
— A senhora não precisa pedir desculpa por existir.
Célia olhou para ela pela primeira vez. Os olhos estavam cansados, mas ainda vivos. Sorriu com um canto da boca, quase imperceptível, e respondeu:
— Eu já aprendi, filha. Mas às vezes a gente cansa de ter que lembrar os outros disso.
O ônibus seguiu. Roberto continuou olhando pela janela, como se nada tivesse acontecido. A senhora loira mexia no celular. Simone apertava a mão de João. E Célia, no assento da janela, respirava o ar quente da cidade, carregando no colo o peso silencioso de todas as pastas que já tinham ocupado o lugar que era dela.
Há preconceitos que gritam. E há outros que apenas ocupam o banco ao lado e fingem que você não está ali.
Escritora Luzia Couto
Lei 9.610/98
Julho 25
Ipanema Minas Gerais Brasil
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Muito obrigada por deixar seu comentário, ele será moderado e em breve liberado aqui. Volte sempre.