Conto de terror


Conto 


A Última Janela

Toda cidade tem uma casa abandonada.

Na pequena cidade de Santa Amélia, havia uma que ninguém se aproximava.

Ficava no alto de uma colina, atrás de um antigo cemitério. Era uma casa grande, de madeira escura, com janelas quebradas e um telhado coberto de musgo.

Mas havia uma coisa estranha.

Uma única janela permanecia sempre intacta.

E, todas as noites, exatamente à meia-noite, uma luz aparecia atrás dela.

Ninguém sabia quem acendia.

A casa estava vazia havia mais de trinta anos.

Pelo menos era o que diziam.

Lucas tinha dezessete anos e não acreditava nessas histórias.

Para ele, tudo aquilo era superstição de cidade pequena.

Até que, numa sexta-feira à noite, seus amigos fizeram um desafio.

— Se você é tão corajoso, vai até lá.

Lucas riu.

— Vou.

— E fica dez minutos dentro da casa.

— Fico vinte.

Às onze e cinquenta da noite, Lucas subiu a colina.

O vento estava frio.

O cemitério parecia ainda mais escuro do que de costume.

Quando chegou diante da casa, percebeu que a porta estava entreaberta.

— Fácil demais — murmurou.

Entrou.

O cheiro de madeira velha e umidade tomou conta do lugar.

Acendeu a lanterna do celular.

Havia móveis cobertos por lençóis.

Retratos antigos nas paredes.

Um relógio parado.

E uma escada que levava ao andar de cima.

Lucas olhou para o celular.

23h58.

Decidiu esperar.

À meia-noite, ouviu um estalo.

A janela do andar superior se iluminou.

Lucas levantou a cabeça.

A luz estava acesa.

Ele sorriu.

— Então é isso...

Subiu as escadas.

Cada degrau rangia sob seus pés.

Quando chegou ao corredor, percebeu algo estranho.

Havia várias portas.

Todas fechadas.

Exceto uma.

A última.

Lucas caminhou até ela.

Antes que pudesse tocar na maçaneta, ouviu uma voz.

— Não entre.

Ele congelou.

Era uma voz de criança.

— Quem está aí?

Silêncio.

— Não entre — repetiu a voz.

Lucas sentiu um arrepio.

— Tem alguém aí?

A voz respondeu:

— Você já entrou.

Lucas olhou para trás.

O corredor estava vazio.

Então ouviu a porta atrás dele se fechar.

Ele tentou abri-la.

Não conseguiu.

— Ei!

Bateu com força.

Nada.

Pegou o celular.

Sem sinal.

A luz da lanterna começou a piscar.

Então percebeu que havia fotografias penduradas na parede.

Aproximou-se.

E sentiu o estômago embrulhar.

Eram fotografias de pessoas.

Homens.

Mulheres.

Crianças.

Todas olhando para a câmera.

Todas com a mesma expressão assustada.

Lucas reconheceu algumas.

Eram pessoas da cidade.

Pessoas que haviam desaparecido ao longo dos anos.

Então viu uma fotografia que fez seu coração parar.

Era uma foto dele.

Lucas deu um passo para trás.

Na fotografia, ele estava diante daquela mesma casa.

Só que havia uma data escrita embaixo:

AMANHÃ.

Ele começou a bater na porta desesperadamente.

— SOCORRO!

A voz da criança voltou:

— Eu avisei.

Lucas olhou para o fim do corredor.

Uma pequena menina estava parada ali.

Vestia um vestido branco antigo.

Os cabelos cobriam parte do rosto.

— Quem é você?

Ela apontou para a porta atrás dele.

— Você precisa sair antes que ela acorde.

— Quem?

A menina olhou para o teto.

— A casa.

Então as paredes começaram a ranger.

Não como madeira velha.

Parecia que algo enorme estava se movendo dentro delas.

O chão tremeu.

As portas do corredor começaram a bater.

Uma após outra.

A menina começou a desaparecer.

— Espera!

Lucas correu até ela.

Mas conseguiu apenas tocar sua mão.

Estava gelada.

— Como eu saio daqui?

Ela respondeu:

— Pela janela.

Lucas olhou para a janela iluminada.

Correu até ela.

Abriu.

Do outro lado não havia a colina.

Não havia o cemitério.

Havia um quarto.

O quarto dele.

Lucas ficou sem entender.

Era o seu quarto.

Sua cama.

Seus livros.

Seu computador.

E, sentado na cama, havia alguém.

Ele mesmo.

O outro Lucas levantou os olhos.

Os dois se encara…

— Não! — gritou Lucas.

O outro sorriu.

Então disse:

— Você demorou.

A janela se fechou violentamente.

Lucas caiu para trás.

Tudo ficou escuro.

Na manhã seguinte, os amigos foram até a casa.

Encontraram a porta aberta.

Não havia sinal de Lucas.

Chamaram a polícia.

Procuraram durante horas.

Nada.

Apenas uma fotografia havia aparecido na parede do corredor.

Uma fotografia nova.

Nela estavam os três amigos de Lucas, parados diante da casa.

Mas havia algo errado.

Eles ainda não tinham tirado aquela fotografia.

No verso estava escrito:

"AMANHÃ"

Desde aquele dia, a janela da casa continua acesa todas as noites.

E dizem que, se alguém passar pela estrada exatamente à meia-noite, poderá ver uma coisa estranha.

Três adolescentes aparecem atrás do vidro.

Parados.

Imóveis.

Olhando para fora.

Esperando.

E, às vezes, um deles levanta lentamente a mão.

Como se estivesse pedindo ajuda.

Ou chamando alguém para entrar.

Mas existe um detalhe que ninguém consegue explicar.

Os três adolescentes parecem estar sorrindo.

E o sorriso de Lucas é sempre o primeiro a aparecer.

Escritora Luzia Couto 

Lei 9.610/98

01/08/26

Ipanema Minas Gerais Brasil

 Poetisa Luzia Couto: 

Crônica A Chuva


 Crônica

O dia em que a chuva levou a casa

Miguel gostava de chuva.

Gostava de ouvir as gotas batendo no telhado de zinco e do cheiro que vinha da terra depois dos primeiros pingos. Quando era menor, corria para o quintal e estendia as mãos para o céu, como se pudesse guardar a água dentro delas.

Sua mãe sempre dizia:

— Entra, menino! Você vai ficar todo molhado!

E ele respondia rindo:

— É só água, mãe!

Naquele tempo, chuva era brincadeira.

Até aquela noite.

Miguel tinha onze anos quando descobriu que a chuva também podia assustar.

Começou como sempre.

Primeiro, algumas gotas no telhado.

Depois, muitas.

Depois, tantas que já não era possível distinguir uma gota da outra.

O barulho ficou tão forte que parecia que o céu inteiro havia desabado sobre a pequena casa onde moravam.

Sua mãe levantou-se da cama.

Olhou pela janela.

Depois olhou para Miguel.

Não disse nada.

Foi naquele silêncio que ele percebeu que havia alguma coisa errada.

A água já começava a entrar pela porta.

A mãe correu para levantar os móveis. O pai tentou proteger os documentos, as fotografias, algumas roupas.

Miguel ficou parado, abraçado ao seu cachorro.

— Mãe... a água vai entrar toda?

Ela tentou sorrir.

— Não, filho. Vai passar.

Mas a voz dela tremia.

E Miguel percebeu que os adultos também tinham medo.

A água subiu.

Primeiro cobriu os pés.

Depois os tornozelos.

Depois os móveis.

A televisão desapareceu.

O sofá desapareceu.

A caixa onde Miguel guardava seus desenhos começou a boiar.

Ele tentou pegá-la.

Dentro estavam seus trabalhos da escola, seus desenhos de animais, uma fotografia antiga da família e uma folha onde havia escrito, com letras tortas:

“Quando eu crescer, quero ser veterinário.”

Ele segurou a caixa contra o peito.

Mas a água levou.

Naquela noite, a chuva levou muito mais do que objetos.

Levou fotografias.

Levou móveis.

Levou brinquedos.

Levou documentos.

Levou lembranças.

E, para algumas famílias da vizinhança, levou até a casa inteira.

Miguel passou aquela noite em um abrigo, sentado ao lado da mãe, enrolado em um cobertor que alguém havia doado.

Ao redor, havia muitas outras pessoas.

Crianças chorando.

Idosos assustados.

Mães tentando acalmar os filhos.

Pais olhando para o vazio, tentando imaginar como começariam tudo novamente.

Miguel ficou em silêncio.

Olhou para a mãe e perguntou:

— Mãe, por que isso aconteceu?

Ela respirou fundo.

— Foi muita chuva, filho.

Ele continuou:

— Mas por que está chovendo tanto?

Ela não soube responder.

Talvez porque não houvesse uma resposta simples.

Nos dias seguintes, Miguel viu sua cidade diferente.

As ruas estavam cobertas de lama.

Árvores haviam caído.

O rio, que antes parecia tranquilo, tinha tomado conta de lugares onde nunca deveria estar.

As pessoas limpavam suas casas em silêncio.

Algumas tentavam salvar o que restou.

Outras simplesmente olhavam para os destroços, sem saber por onde começar.

Na escola, semanas depois, a professora falou sobre mudanças climáticas.

Miguel levantou a mão.

— Professora, as mudanças climáticas fizeram a minha casa alagar?

A sala ficou em silêncio.

A professora se aproximou dele.

— Uma enchente específica pode ter muitas causas, Miguel. Mas o aquecimento do planeta pode tornar alguns eventos extremos, como chuvas intensas, mais frequentes ou mais severos em determinadas regiões.

Miguel abaixou os olhos.

Pensou na caixa de desenhos boiando na água.

Pensou na mãe tentando salvar as fotografias.

Pensou nas pessoas que ainda estavam reconstruindo suas casas.

Então perguntou:

— E quem vai cuidar para isso não acontecer de novo?

A professora respirou fundo.

— Todos nós precisamos fazer a nossa parte. Mas também precisamos que governos e empresas tomem decisões responsáveis para reduzir os impactos das mudanças climáticas e proteger as pessoa…

Miguel ficou pensando naquela resposta.

Naquela tarde, ao voltar para casa, passou pelo rio.

Ficou alguns minutos olhando para a água.

Lembrou-se de quando era pequeno e achava a chuva bonita.

Ainda achava.

Mas agora sabia que a natureza podia ser generosa e, ao mesmo tempo, revelar sua força quando os seres humanos ultrapassavam certos limites.

No caminho, encontrou uma árvore caída.

Parou.

Colocou a mão sobre o tronco molhado.

E imaginou quantos anos aquela árvore havia levado para crescer.

Naquele momento, Miguel entendeu uma coisa que nenhum livro havia conseguido explicar.

As mudanças climáticas não eram apenas uma questão de números.

Não eram apenas graus a mais na temperatura.

Não eram apenas gráficos, conferências ou notícias na televisão.

Tinham rosto.

Tinham nome.

Tinham endereço.

Tinham histórias.

Tinham crianças.

Naquele dia, Miguel decidiu plantar uma árvore.

Não porque uma árvore pudesse, sozinha, impedir uma enchente.

Ele sabia que não.

Plantou porque precisava acreditar que alguma coisa poderia começar pequena e crescer.

Plantou porque queria que, um dia, outra criança pudesse sentar debaixo daquela sombra.

Plantou porque não queria que o futuro fosse apenas uma palavra bonita.

Enquanto colocava a pequena muda na terra, sua mãe observava de longe.

— O que você está fazendo, filho?

Miguel limpou as mãos na bermuda e respondeu:

— Estou tentando ajudar.

Ela sorriu.

E, pela primeira vez desde a enchente, aquele sorriso não escondia medo.

Talvez não pudéssemos devolver tudo o que a água havia levado.

Talvez nenhuma árvore pudesse apagar aquela noite.

Mas Miguel começava a compreender que cuidar do planeta não significava apenas salvar florestas distantes ou proteger animais ameaçados.

Significava cuidar da casa onde todos nós moramos.

A mesma casa que, quando é maltratada, responde.

Às vezes com seca.

Às vezes com calor.

Às vezes com incêndios.

Às vezes com tempestades que chegam sem pedir licença.

Naquela noite, Miguel olhou para o céu.

Havia algumas nuvens.

Ele esperou.

Por um instante, sentiu medo.

Depois segurou a mão da mãe.

E pensou que talvez o futuro ainda pudesse ser diferente.

Não porque a chuva deixaria de cair.

Mas porque talvez nós aprendêssemos, finalmente, a escutar o que ela estava tentando nos dizer.

A Terra não é uma herança que recebemos para fazer dela o que quisermos.

É uma casa que tomamos emprestada de quem ainda vai nascer.

E Miguel, aos onze anos, já havia entendido uma coisa que muitos adultos ainda demoravam a perceber:

quando cuidamos do planeta, estamos cuidando das pessoas que amamos — e também daquelas que ainda nem conhecemos.

Escritora Luzia Couto
Lei 9.610/98
10/10/24
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