O tempo que nos resta
O tempo que nos resta começa no instante em que abrimos os olhos pela primeira vez. Não chega com fanfarra nem com aviso. Chega quieto, como um segundo coração batendo do lado de fora do peito. Desde aquele primeiro choro, cada minuto já está contado — não por alguém cruel, mas pela própria natureza das coisas que vivem.
Às vezes a gente finge que não sabe. Acorda, toma café, responde mensagens, promete “depois a gente conversa”, “semana que vem a gente se vê”, “quando as coisas acalmarem”. E o tempo, paciente e sem pressa, continua andando. Ele não grita. Só vai sumindo pelas bordas dos dias, como a luz no fim da tarde.
Há quem diga que a vida é curta. Mas curta demais para quê? Para todas as conversas que ficaram pela metade? Para os abraços que adiamos? Para o livro que nunca abrimos, a viagem que sempre ficou “para quando eu puder”, o “eu te amo” que travou na garganta porque o momento nunca parecia certo?
O que resta não é uma quantidade. É uma qualidade. É o jeito como a gente escolhe gastar o que ainda não foi gasto. É olhar no rosto de quem amamos e perceber, de verdade, que aquele rosto também está envelhecendo. É sentar na varanda e deixar o sol esquentar a pele sem culpa. É perdoar mais rápido. É rir mais alto. É chorar quando precisar, sem pedir desculpas pelo choro.
Porque o tempo que sobra não é infinito. E, por isso mesmo, é sagrado. Cada manhã que ainda nos é dada é uma segunda chance disfarçada de rotina. Cada noite em que ainda conseguimos dormir ao lado de alguém ou sozinhos, em paz é um milagre discreto.
Então talvez a pergunta não seja “quanto tempo ainda nos resta”. Talvez seja: o que vamos fazer com o que ainda temos, enquanto ainda temos?
Porque um dia o relógio vai parar. E o que vai ficar não será a quantidade de dias que vivemos, mas a densidade com que os preenchemos.
Cuide bem do que ainda lhe resta. Não porque o fim está perto. Mas porque o agora é o único lugar onde o tempo ainda é nosso.
Escritora Luzia Couto
Lei 9.610/98
20/09/26
Ipanema Minas Gerais Brasil