CONTO SUSPENSE


 O Quarto 307

O Hotel Mirante era antigo, elegante e quase vazio durante o inverno.

Quando a jornalista Marina chegou para passar três dias investigando a história do local, a recepcionista entregou a chave do quarto 305 e fez uma recomendação estranha:

— Evite o corredor do terceiro andar depois das dez da noite.

Marina sorriu. Já tinha ouvido histórias parecidas em dezenas de cidades.

Naquela mesma noite, porém, algo chamou sua atenção.

O corredor do terceiro andar possuía os quartos 301, 303, 305 e 309.

Mas entre o 305 e o 309 havia uma porta marcada com o número 307.

Estranho.

A recepcionista não havia mencionado aquele quarto.

Ainda mais estranho era o fato de que a numeração do corredor mostrava que deveria haver espaço para apenas mais um quarto.

Quando Marina perguntou sobre o 307 na manhã seguinte, a recepcionista empalideceu.

— Você deve estar enganada. Não existe quarto 307.

A jornalista insistiu.

A mulher apenas desviou o olhar.

Naquela noite, Marina decidiu investigar.

Às 22h15, caminhou pelo corredor.

Lá estava o quarto 307.

A porta era real.

O número estava lá.

Ela tentou girar a maçaneta.

Trancada.

Aproximou o ouvido da madeira.

Silêncio.

Então ouviu um som distante.

Um telefone tocando.

Dentro do quarto.

Trriiim... Trriiim...

Marina sentiu um arrepio.

Pegou o celular e começou a filmar.

Nesse instante, o telefone parou.

E alguém bateu na porta.

Pelo lado de dentro.

Três vezes.

TOC... TOC... TOC...

Marina recuou.

O corredor estava vazio.

As luzes piscaram.

Quando voltaram ao normal, o número na porta havia mudado.

Agora era 306.

Ela piscou.

Olhou novamente.

307.

Seu coração disparou.

Correu para o quarto e pesquisou os registros antigos do hotel.

Depois de horas procurando jornais digitalizados, encontrou uma reportagem de 1987.

Uma mulher chamada Helena Duarte havia desaparecido misteriosamente durante uma hospedagem.

Última localização registrada:

Quarto 307.

Mas o que chamou a atenção de Marina foi outra informação.

Segundo os documentos do hotel, o quarto havia sido demolido após um incêndio no mesmo ano.

Não deveria mais existir.

Na madrugada, alguém bateu em sua porta.

Três vezes.

TOC... TOC... TOC...

Ela abriu.

Não havia ninguém.

Apenas uma chave antiga no chão.

Com uma etiqueta enferrujada.

307.

Movida pela curiosidade, voltou ao corredor.

A porta continuava lá.

Desta vez, a chave entrou perfeitamente na fechadura.

Com as mãos tremendo, ela abriu.

O quarto estava intacto.

Como se tivesse sido abandonado décadas antes.

Uma mala.

Um telefone antigo.

Uma cama arrumada.

E uma camada grossa de poeira.

Sobre a mesa havia um diário.

As últimas palavras escritas diziam:

"Se alguém encontrar este quarto, não confie no homem de terno cinza."

Marina ouviu um estalo atrás de si.

Virou-se.

Um homem de terno cinza estava parado perto da porta.

Imóvel.

Observando.

Ela correu.

Mas o corredor havia desaparecido.

No lugar dele existia apenas uma sequência interminável de portas numeradas.

305,309,307,307,307.

O homem começou a andar.

Sem pressa.

Cada passo ecoava pelo corredor infinito.

Marina correu até encontrar uma janela.

Quebrou o vidro.

E se lançou para fora.

Então acordou.

Estava em sua cama.

No quarto 305.

O sol entrava pela janela.

Tudo parecia ter sido um pesadelo.

Aliviada, fez as malas para ir embora.

Antes de sair, deixou a chave sobre a mesa.

Foi quando percebeu algo gravado no metal.

As iniciais:

H.D.

Helena Duarte.

E, do banheiro vazio, veio o som de um telefone tocando.

Trriiim... Trriiim...

Dessa vez, alguém atendeu.

E uma voz feminina sussurrou:

— Finalmente encontrei uma saída.

A ligação caiu.

E o quarto 307 nunca mais foi visto por ninguém.

Escritora Luzia Couto 

Lei 9.610/98

12/03/22

Ipanema Minas Gerais Brasil

CONTO SUSPENSE


Conto de terror 

 A Batida na Janela

A chuva caía forte naquela noite. Lucas estava sozinho na casa da avó, uma construção antiga no fim de uma estrada de terra cercada por mata fechada.

A energia havia acabado havia horas.

Sentado na sala, iluminado apenas por uma lanterna, ele tentava ignorar os estalos da madeira velha. A avó sempre dizia:

— Nunca abra a janela depois da meia-noite.

Lucas achava aquilo uma superstição boba.

Às 00h17, ouviu uma batida.

TOC... TOC... TOC...

Vinha da janela da cozinha.

Seu coração acelerou.

Pensou ser um galho levado pelo vento. Mas a árvore mais próxima ficava longe demais.

Então ouviu novamente.

TOC... TOC... TOC...

Dessa vez mais forte.

Lucas pegou a lanterna e caminhou pelo corredor escuro. Quando iluminou a janela, não viu nada além da chuva.

Respirou aliviado.

Foi então que percebeu algo estranho.

As batidas continuavam.

Mas não vinham de fora.

Vinham do outro lado do vidro... como se algo estivesse batendo do lado de dentro da casa para sair.

Lucas congelou.

A cozinha estava vazia.

Ou pelo menos parecia vazia.

Lentamente, passou a lanterna pelos cantos.

Mesa.

Fogão.

Armário.

Nada.

Então a luz atingiu o teto.

Algo estava grudado lá.

Uma figura magra, pálida e de braços longos demais observava Lucas de cabeça para baixo.

Os olhos eram negros.

A boca se abriu em um sorriso impossível.

A lanterna apagou.

Lucas ouviu um sussurro bem perto do ouvido:

— Finalmente você me viu.

O jovem correu desesperado pela casa até alcançar a porta da frente.

Trancada.

Tentou abrir.

Nada.

Olhou para trás.

A criatura estava no corredor.

Imóvel.

Observando.

Então apareceu mais perto.

Sem caminhar.

Sem fazer som.

Como se a própria escuridão a arrastasse.

Lucas gritou.

A criatura sorriu novamente.

E desapareceu.

A energia voltou naquele exato instante.

As luzes da casa acenderam.

O corredor estava vazio.

Tremendo, Lucas passou o resto da noite acordado.

Ao amanhecer, foi embora.

Antes de sair, encontrou um velho caderno da avó.

Nele havia apenas uma frase escrita à mão:

"Se alguém ouvir batidas na janela depois da meia-noite, não olhe. Ela só pode entrar quando é vista."

Lucas sentiu um arrepio.

Porque, atrás daquela página, havia uma foto antiga da família.

E nela, parado ao seu lado, estava o mesmo ser de olhos negros.

Sorrindo.

Mesmo que a fotografia tivesse sido tirada vinte anos antes de Lucas nascer.

E, quando ele olhou de novo para a foto...

A criatura não estava mais lá.

Mas alguém havia aparecido na janela ao fundo.

Observando o fotógrafo.

Observando você.

Esperando a próxima meia-noite.


Escritora Luzia Couto 

Lei 9.610/98

29/06/25

Ipanema Minas Gerais Brasil

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