PROSA O QUE O TEMPO LEVA


 Prosa


O Que o Tempo Leva e o Que o Tempo Deixa

A vida tem um costume curioso: enquanto estamos ocupados vivendo, ela passa.

Quando somos crianças, desejamos crescer. Acreditamos que a felicidade mora logo ali, no próximo aniversário, na próxima fase, no próximo sonho realizado. Depois crescemos e começamos a correr. Corremos atrás de trabalho, de contas pagas, de responsabilidades, de objetivos que parecem sempre urgentes.

E, sem perceber, vamos adiando a vida.

Adiamos aquele café com um amigo. Adiamos o abraço nos pais. Adiamos a visita a um irmão. Adiamos o telefonema para alguém que amamos. Sempre encontramos uma justificativa razoável. "Depois eu vou." "Na próxima semana eu faço." "Quando as coisas melhorarem."

Mas o tempo não conhece espera.

Ele segue caminhando silenciosamente pelos corredores da nossa existência, levando dias que não voltam mais.

Um dia olhamos fotografias antigas e percebemos que a criança da imagem já se tornou adulta. Os pais ganharam cabelos brancos. Os filhos cresceram. Algumas pessoas já não estão mais aqui para receber o abraço que ficou para depois.

É nesse momento que compreendemos algo importante: a vida não é feita apenas de grandes acontecimentos.

Ela é feita de pequenas presenças.

São os minutos compartilhados à mesa. As conversas sem pressa. As risadas que surgem sem motivo. Os encontros simples de um final de tarde. Os gestos que parecem comuns, mas que um dia se transformam nas lembranças mais preciosas que carregamos.

O tempo leva muitas coisas.

Leva a juventude, leva oportunidades perdidas, leva pessoas queridas para outros caminhos. Mas ele também deixa algo para quem aprende a observá-lo.

Deixa sabedoria.

Ensina que ninguém é eterno. Que nenhum problema dura para sempre. Que os bens materiais são passageiros. E que as maiores riquezas quase nunca cabem dentro de uma carteira ou de uma conta bancária.

Cabem dentro do coração.

Talvez a grande missão da vida não seja acumular coisas, mas colecionar momentos. Não seja ter tudo, mas valorizar aquilo que temos enquanto ainda está ao nosso alcance.

Porque haverá um dia em que olharemos para trás.

E, nesse instante, não serão os objetos que aquecerão nossa alma.

serão as pessoas que amamos, os abraços que demos, o bem que fizemos e as memórias que construímos.

No fim, o tempo leva quase tudo.

Mas jamais consegue apagar o amor que distribuímos pelo caminho.

Escritora Luzia Couto  

Lei 9.610/98

19/09/2026

Ipanema Minas Gerais Brasil

CRÔNICA O PERFUME QUE ATRAVESSOU MILÊNIOS


 Crônica o perfume que atravessou o tempo

Há mais de três mil anos, nas terras quentes da Assíria, entre o Tigre e o Eufrates, uma mulher caminhava pelos corredores de um palácio com as mãos cheirando a flores e a resinas. Seu nome era Tapputi-Belatekallim — “Tapputi, a senhora do palácio”. Poucos a conheciam pelo nome completo. Para o rei e para as mulheres que trabalhavam ao seu lado, ela era simplesmente Tapputi: a que sabia transformar o invisível em presença.

Não havia laboratórios de vidro, nem balanças de precisão, nem frascos de cristal. Havia apenas tábuas de argila, água do rio, fogo controlado e um olfato que parecia escutar o mundo. Tapputi misturava cártamo, mirra, cálamo, flores e óleos. Destilava. Filtrava. Voltava a destilar. Repetia o gesto até que o líquido se tornasse algo que não era mais planta nem resina, mas memória. Um perfume para o rei, para os deuses, para as estátuas que precisavam ser ungidas nos rituais. Um perfume que atravessava o corpo e ficava no ar, como uma assinatura invisível.

Nas tábuas cuneiformes que sobreviveram ao tempo, seu nome aparece ao lado de listas de ingredientes e de instruções precisas. “Segundo a boca de Tapputi, a muraqqītu”, diz o texto. A muraqqītu: a especialista em aromáticos. Não era apenas uma artesã. Era a líder de um grupo de mulheres que dominavam a arte de extrair essências. Juntas, elas faziam o que hoje chamaríamos de química: separavam, concentravam, transformavam. E faziam isso sob a luz da lua cheia, como se o céu também participasse da fórmula.

Imagine o cheiro daquele palácio. O calor do dia, o suor dos corpos, a poeira das ruas, o cheiro de comida e de animais. E, de repente, o ar muda. Uma nota floral. Uma nota resinosa. Algo que suaviza o excesso e torna o cotidiano mais suportável, quase sagrado. Tapputi não criava apenas fragrâncias. Criava uma forma de presença. Uma maneira de o rei ser lembrado mesmo quando ausente. Uma maneira de os deuses serem honrados pelo olfato, esse sentido tão antigo e tão íntimo.

Séculos depois, quando as tábuas foram desenterradas e traduzidas, o mundo moderno olhou para ela com um misto de surpresa e reconhecimento. “A primeira química da história”, disseram alguns. “A primeira perfumista de quem se tem nome”, disseram outros. Mas talvez a verdade seja mais simples e mais profunda: Tapputi foi uma mulher que, num tempo em que o conhecimento raramente deixava registro escrito, conseguiu gravar na argila o que sabia fazer com as mãos e com o nariz.

Hoje, quando abrimos um frasco de perfume, quase nunca pensamos nela. Pensamos em Grasse, em Paris, em nomes famosos e em campanhas publicitárias. Mas o gesto continua o mesmo: extrair de uma planta o que ela guarda de mais secreto e transformá-lo em algo que se cola à pele e viaja conosco. O gesto de Tapputi atravessou o tempo. Continua vivo cada vez que alguém para, respira fundo e diz: “Este cheiro… eu conheço.”

Talvez o maior perfume que ela tenha criado não esteja em nenhuma fórmula reconstituída por cientistas contemporâneos. Esteja na ideia de que uma mulher, há mais de três milênios, já sabia que o invisível também pode ser permanente. Que o cheiro, esse fantasma doce e passageiro, pode ser a forma mais antiga de deixar uma marca no mundo.

E assim, enquanto o vento sopra sobre as ruínas da Assíria e sobre as cidades modernas que ainda fabricam fragrâncias, o nome de Tapputi paira no ar — discreto, tenaz, como um residual que se recusa a desaparecer.

Escritora Luzia Couto  setembro 26

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