Prosa o Tempo que nos resta


 O tempo que nos resta 

O tempo que nos resta começa no instante em que abrimos os olhos pela primeira vez. Não chega com fanfarra nem com aviso. Chega quieto, como um segundo coração batendo do lado de fora do peito. Desde aquele primeiro choro, cada minuto já está contado — não por alguém cruel, mas pela própria natureza das coisas que vivem.

Às vezes a gente finge que não sabe. Acorda, toma café, responde mensagens, promete “depois a gente conversa”, “semana que vem a gente se vê”, “quando as coisas acalmarem”. E o tempo, paciente e sem pressa, continua andando. Ele não grita. Só vai sumindo pelas bordas dos dias, como a luz no fim da tarde.

Há quem diga que a vida é curta. Mas curta demais para quê? Para todas as conversas que ficaram pela metade? Para os abraços que adiamos? Para o livro que nunca abrimos, a viagem que sempre ficou “para quando eu puder”, o “eu te amo” que travou na garganta porque o momento nunca parecia certo?

O que resta não é uma quantidade. É uma qualidade. É o jeito como a gente escolhe gastar o que ainda não foi gasto. É olhar no rosto de quem amamos e perceber, de verdade, que aquele rosto também está envelhecendo. É sentar na varanda e deixar o sol esquentar a pele sem culpa. É perdoar mais rápido. É rir mais alto. É chorar quando precisar, sem pedir desculpas pelo choro.

Porque o tempo que sobra não é infinito. E, por isso mesmo, é sagrado. Cada manhã que ainda nos é dada é uma segunda chance disfarçada de rotina. Cada noite em que ainda conseguimos dormir ao lado de alguém  ou sozinhos, em paz é um milagre discreto.

Então talvez a pergunta não seja “quanto tempo ainda nos resta”. Talvez seja: o que vamos fazer com o que ainda temos, enquanto ainda temos?

Porque um dia o relógio vai parar. E o que vai ficar não será a quantidade de dias que vivemos, mas a densidade com que os preenchemos.

Cuide bem do que ainda lhe resta. Não porque o fim está perto. Mas porque o agora é o único lugar onde o tempo ainda é nosso.

Escritora Luzia Couto 

Lei 9.610/98

20/09/26

Ipanema Minas Gerais Brasil

Crônica oa filhos de ninguem

Os Filhos de Ninguém

Na praça central, entre pombos e restos de pipoca, há crianças que parecem não pertencer a ninguém. Dormem em bancos de madeira, acordam com o sol batendo no rosto e carregam, nos pés descalços, a poeira da cidade. São chamadas de "meninos de rua", como se a rua fosse mãe, pai e lar. Mas a rua não acolhe: apenas engole.

O abandono infantil não é obra do acaso. É resultado de políticas públicas que falham, de governos que preferem erguer muros em vez de pontes e de uma sociedade que fecha os olhos para não se sentir cúmplice. Cada criança invisível é um retrato da desigualdade que fingimos não ver.

Enquanto se discute, nos gabinetes, sobre orçamento e prioridades, elas disputam restos de comida com cães vadios. Enquanto se fala em crescimento econômico, elas crescem sem escola, sem afeto e sem futuro. O abandono é coletivo: não é apenas da família que se ausentou, mas de todos nós, que aceitamos a indiferença como rotina.

E, paradoxalmente, são essas crianças que ainda sorriem, que inventam brincadeiras com tampinhas de garrafa, que transformam o nada em esperança. Elas resistem, mas não deveriam precisar resistir. Deveriam viver.

A crônica não é sobre elas; é sobre nós. Porque cada criança abandonada é um espelho da sociedade que escolhe quem merece cuidado e quem pode ser descartado. E, nesse reflexo, o que vemos é a nossa própria falência moral.


Escritora Luzia Couto  

25/03/2026  

Ipanema, Minas Gerais, Brasil

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