CrônicaOs Olhos que Não Veem
Era uma manhã comum quando vi dois homens discutindo na praça.
Um apontava para o céu e insistia que as nuvens anunciavam chuva.
O outro ria e dizia que seria um dia de sol.
Nenhum dos dois parecia disposto a observar novamente o horizonte. Não estavam procurando a verdade. Estavam apenas tentando provar que tinham razão.
Segui meu caminho pensando que talvez grande parte dos conflitos humanos nasça exatamente assim.
Não da falta de olhos.
Mas da falta de disposição para enxergar.
A verdade é que o ser humano tem uma estranha habilidade de fechar os olhos para aquilo que não combina com suas crenças.
Quando amamos alguém, ignoramos seus defeitos.
Quando odiamos alguém, ignoramos suas virtudes.
Quando desejamos muito uma coisa, confundimos esperança com realidade.
Quando tememos alguma coisa, passamos a vê-la em toda parte.
Os fatos permanecem os mesmos.
O que muda é a lente através da qual os observamos.
Recordo-me de uma família que passou anos sem se falar. O motivo inicial era tão pequeno que ninguém mais conseguia explicá-lo com clareza. Contudo, cada membro havia construído sua própria versão da história.
Com o passar do tempo, as versões tornaram-se mais importantes que os acontecimentos.
Ninguém buscava compreender.
Todos queriam confirmar aquilo em que já acreditavam.
E assim permaneceram separados.
Não pela verdade.
Mas pelas interpretações.
Existe uma cegueira curiosa que não afeta a visão.
Afeta a humildade.
É aquela que nos faz acreditar que enxergamos tudo com absoluta clareza enquanto permanecemos presos dentro de nossas próprias certezas.
Talvez por isso seja tão difícil admitir um erro.
Reconhecer que estivemos enganados significa derrubar uma casa inteira construída dentro da mente.
E poucos têm coragem para isso.
Preferimos defender equívocos antigos a reconstruir nossas convicções.
Preferimos o conforto da ilusão ao desconforto da verdade.
Ao longo da vida, conheci pessoas capazes de notar a menor falha nos outros, mas completamente incapazes de perceber a própria arrogância.
Conheci homens que denunciavam injustiças enquanto praticavam outras.
Conheci pessoas que exigiam compreensão, mas nunca ofereciam escuta.
Olhavam para o mundo inteiro.
Menos para si mesmas.
E talvez aí esteja a forma mais profunda de cegueira.
Porque a verdade nem sempre está escondida em lugares distantes.
Muitas vezes ela está diante de nós, silenciosa, esperando apenas que deixemos de lado o orgulho.
O problema é que enxergar exige mais do que olhos.
Exige coragem.
Coragem para rever opiniões.
Coragem para abandonar preconceitos.
Coragem para admitir que a realidade é quase sempre mais complexa do que gostaríamos.
No fim das contas, não são os fatos que mais nos enganam.
São as histórias que contamos a nós mesmos sobre eles.
E talvez a sabedoria comece justamente no instante em que deixamos de afirmar "eu sei" para perguntar, com sincera humildade:
"Será que estou vendo tudo o que existe para ser visto?"
Porque a verdade raramente se esconde.
Na maioria das vezes, somos nós que passamos por ela de olhos abertos e mente fechada.
Escritora Luzia Couto
Lei 9.610/98
17/10/26 IPANEMA MINAS GERAIS BRASIL