Crônica São Crianças


 Crônica

Elas não são “especiais”. São crianças.

Todo dia, em alguma sala de aula, em alguma fila de supermercado, em alguma sala de espera de consultório, alguém aponta e diz baixinho: “É especial”.
A palavra cai como um carimbo. Parece carinho, mas muitas vezes funciona como cerca.
Por trás do rótulo há um menino que não consegue ficar quieto porque o corpo dele grita mais alto que as regras. Há uma menina que cobre os ouvidos quando o recreio explode em gritos, porque o mundo chega até ela sem filtro. Há o adolescente que fala sozinho, não por falta de companhia, mas porque as palavras lá dentro são demais e precisam sair de algum jeito.
Eles não são “especiais”. São portadores de transtornos que a ciência já nomeou: autismo, TDAH, transtorno de ansiedade, dislexia, e tantos outros. Mas o nome científico raramente chega primeiro. O que chega primeiro é o olhar de pena, a exclusão educada, a fila separada, o “ele não consegue mesmo”.
As necessidades dessas crianças não são luxo. São urgência.
Elas precisam de adultos que parem de medir o valor delas pela capacidade de se encaixar num molde. Precisam de professores que entendam que silêncio forçado não é aprendizado e que movimento não é desrespeito. Precisam de escolas que ofereçam tempo, espaço e métodos diferentes, sem transformar a diferença em castigo.
Em casa, precisam de pais que consigam respirar sem culpa. Pais que ouçam “seu filho é especial” e respondam, com firmeza e amor: “Meu filho tem um transtorno e tem direito a tudo o que qualquer outra criança tem: respeito, oportunidades e a chance de errar sem ser definido pelo erro”.
No recreio, na rua, no aniversário da turma, elas precisam de colegas que não riam do jeito diferente de falar, de andar, de sentir. Precisam de brincadeiras que incluam, não de solidão disfarçada de “ele prefere ficar sozinho”.
E, acima de tudo, precisam ser vistas além do diagnóstico.
Porque o menino que balança as mãos também sonha.
A menina que evita o olhar também ama.
O adolescente que explode em crises também sente medo de ser rejeitado.
Não se trata de heroísmo. Não se trata de “anjos especiais”. Trata-se de infância. De direito a ser criança antes de ser laudo. De direito a ter dificuldades sem perder a dignidade.
Quando a gente para de taxá-las e começa a enxergá-las, alguma coisa muda.
A sala de aula respira melhor.
A família se sente menos sozinha.
E a criança, finalmente, deixa de carregar o peso de ser “especial”
para simplesmente poder ser quem ela é.

Luzia Couto 22/09/26

Crônica A porta da igreja


 Crônica: A porta da igreja

Todo domingo, às onze horas, a Igreja de Nossa Senhora da Esperança abria as portas com o mesmo som de madeira antiga. O padre Antônio subia ao altar, ajeitava o microfone e começava a missa com a voz firme de quem já repetiu as mesmas palavras mil vezes. Na primeira fila, quase sempre, estava Dona Helena. Cabelo branco, terço enrolado nos dedos, bíblia de capa de couro no colo. Ela conhecia de cor todos os salmos e corrigia, em voz baixa, quem errava a resposta da assembleia.
Atrás dela, no fundo da igreja, sentava-se Seu Joaquim. Homem quieto, mãos calejadas, camisa surrada. Raramente falava. Apenas escutava, a cabeça baixa, como se as palavras entrassem nele de um jeito diferente.
Naquele domingo, depois da comunhão, o padre falou sobre o amor ao próximo. Disse que a fé sem obras é morta. Disse que amar o irmão é a prova verdadeira de quem crê. Dona Helena assentiu com vigor, batendo levemente no peito. Vários fiéis murmuraram “amém”. Seu Joaquim apenas continuou olhando para o chão.
Quando a missa terminou, o povo começou a sair. Na calçada, encostado no muro da igreja, estava um homem magro, de uns quarenta anos, com uma sacola plástica na mão e o olhar cansado. Chamava-se Marcos. Pediu esmola em voz baixa, quase envergonhado:
— Um trocado, por favor… só pra comer.
Dona Helena passou por ele com o terço ainda na mão. Não parou. Não olhou. Apenas apertou a bolsa contra o corpo e murmurou para a amiga que vinha ao lado:
— Esses aí só querem aproveitar. Tem que trabalhar.
A amiga, chamada Tereza, concordou:
— É verdade. E ainda ficam na porta da igreja… falta de vergonha.
Mais adiante, um grupo de jovens que tinha cantado no coral também passou. Um deles, Pedro, falou alto o bastante para ser ouvido:
— Eu tenho fé, mas não sou otário.
Marcos baixou a cabeça. Continuou ali, imóvel.
Foi então que Seu Joaquim saiu pela porta lateral. Parou na frente de Marcos, tirou do bolso uma nota dobrada e a colocou na mão dele, sem dizer quase nada:
— Vai lá no bar do seu Zé. Pede um prato feito. Fala que eu mandei.
Marcos levantou os olhos, surpreso. Joaquim apenas fez um gesto leve com a cabeça e seguiu andando, como quem não tinha feito nada de especial.
Do outro lado da rua, Dona Helena ainda conversava sobre a homilia.
— Bonita a palavra de hoje, não foi? — dizia ela. — A gente precisa ter mais fé neste mundo.
Tereza assentiu:
— Muita fé. O mundo está perdido.
Nenhuma das duas viu Seu Joaquim atravessar a rua. Nenhuma das duas viu Marcos entrar no bar do seu Zé com a nota na mão. E nenhuma das duas percebeu que, enquanto falavam de fé, o amor ao próximo tinha acabado de passar quieto por elas, sem fazer barulho, sem pedir aplauso, sem precisar de microfone.
Às vezes a fé sobe ao altar e fala alto.
Outras vezes, ela apenas coloca uma nota na mão de alguém e continua andando.  Luzia Couto 22/09/26

Publicado em 22

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