Desde que tua presença recolheu suas velas
e navegou para horizontes que meus olhos não alcançam,
os dias passaram a caminhar
com um silêncio diferente.
As manhãs ainda florescem,
os rios continuam seguindo seu destino,
as estrelas cumprem seus percursos,
mas algo do universo parece guardar
o espaço exato da tua passagem.
Por vezes,
o vento atravessa as cortinas
como um antigo mensageiro
e espalha pelos cômodos da memória
fragrâncias invisíveis,
como se o tempo, generoso,
me enviasse pequenas cartas perfumadas
escritas com tua lembrança.
Ainda escuto melodias perdidas
entre as margens do amanhecer.
São canções que não chegam aos ouvidos,
mas ao coração,
e nelas reencontro a ternura
que embalava as noites
como a lua embala os jardins adormecidos.
As conversas permanecem vivas,
não em palavras,
mas em constelações de instantes
que brilham sob o céu da recordação.
Às vezes sorrio sozinho,
como quem encontra uma estrela antiga
guardada entre páginas do tempo.
Quando a música visita o ar,
as emoções despertam como flores após a chuva.
Então surge teu sorriso,
claro como aurora sobre montanhas,
e teu olhar,
farol dourado que continua iluminando
mares que julgava esquecidos.
As memórias são tesouros raros,
lapidados pela eternidade.
Não pertencem ao passado,
mas a um jardim secreto
onde o afeto floresce sem conhecer inverno.
Ali, encontro tua companhia outra vez,
serena como a luz que permanece
mesmo depois do ocaso.
E quando contemplo
aquilo que restou da matéria,
não vejo fim.
Vejo sementes devolvidas à terra,
vejo pó de estrelas retornando ao céu,
vejo ciclos completando sua travessia.
Porque existem presenças
que o tempo não apaga,
que as estações não levam,
que a distância não alcança.
Presenças que se transformam
em luz dentro da alma.
E tenho a certeza
de que, em qualquer era,
em qualquer amanhecer,
em qualquer curva do infinito,
teu brilho continuará existindo,
como uma constelação discreta
habitando para sempre
os horizontes do meu coração.
Escritora Luzia Couto
Lei 9.610/98
21/08/2020