Crônica o homem que vendeu a propria alma


 Crônica

O Homem que Vendeu a Alma em Pequenas Parcelas

Quando jovem, Augusto acreditava que seria diferente.
Observava os adultos correndo pelas ruas, sempre cansados, sempre preocupados, e jurava que jamais se tornaria um deles.

Queria escrever livros.
Queria amar profundamente.
Queria ajudar as pessoas.
Queria mudar o mundo.
Mas o mundo tinha outros planos.
Aos poucos, a vida começou a fazer suas cobranças.
Primeiro veio o emprego que ele odiava, mas que pagava as contas.

Depois vieram as amizades abandonadas por falta de tempo.
Em seguida, os sonhos adiados para o próximo mês.
Depois para o próximo ano.
Depois para um futuro que nunca chegou.
No início, cada renúncia doía.
Mas a dor também envelhece.

E um dia ela para de reclamar.
Aos quarenta anos, Augusto já era um homem bem-sucedido.
Tinha dinheiro.
Tinha um belo apartamento.
Tinha um carro que despertava inveja.

Tinha tudo aquilo que passaram a vida lhe ensinando a desejar.
Mas havia algo estranho.
Quando chegava em casa, o silêncio o esperava na sala.

A esposa havia partido anos antes.
Não por falta de amor.
Por falta de presença.
Ele estava sempre ocupado.

Sempre resolvendo algo importante.
Sempre prometendo que depois daria atenção ao que realmente importava.

O "depois" nunca veio.

Os amigos desapareceram pelo mesmo motivo.
As conversas foram substituídas por mensagens rápidas.
Os encontros transformaram-se em lembranças distantes.
Os aniversários passaram sem abraços.
Os anos passaram sem significado.
E Augusto continuou trabalhando.
Sempre trabalhando.

Porque precisava preencher um vazio que o próprio trabalho havia criado.
Numa noite chuvosa, ao voltar para casa, encontrou uma caixa antiga no fundo de um armário.
Dentro dela estavam os cadernos da juventude.

Abriu um deles.
Na primeira página havia uma frase escrita por sua própria mão:
"Nunca deixe que o mundo transforme você em alguém que não reconheceria no espelho."

Augusto ficou imóvel.
Leu a frase uma vez.
Duas vezes.
Três vezes.
Então caminhou até o espelho da sala.
O homem refletido ali tinha cabelos grisalhos, olhos cansados e uma expressão permanentemente endurecida.

Tentou encontrar o garoto que havia escrito aquelas palavras.
Não encontrou.
Foi nesse instante que compreendeu a verdadeira tragédia da existência.
A decadência humana não acontece de repente.

Não chega como um terremoto.
Chega como uma goteira.
Silenciosa.
Paciente.
Imperceptível.
Ela acontece cada vez que escolhemos a ambição no lugar do amor.
Cada vez que ignoramos quem precisa de nós.

Cada vez que trocamos valores por vantagens.
Cada vez que enterramos um sonho para agradar expectativas alheias.
Até que um dia acordamos cercados por tudo aquilo que desejávamos possuir e sem nada daquilo que realmente precisávamos viver.

Naquela noite, Augusto chorou.
Não pelo tempo.
Não pelo dinheiro.
Não pelos cabelos brancos.
Não pelas pessoas que partiram.
Chorou pelo jovem que havia morrido dentro dele sem que percebesse.
Com as mãos trêmulas, fechou o velho caderno e ficou observando a chuva escorrer pela janela.

Então algo chamou sua atenção.
Na contracapa havia um envelope amarelado que ele nunca tinha visto.
Abriu.
Dentro havia uma única folha.
Reconheceu imediatamente sua própria letra.
Era uma carta escrita aos dezoito anos.
Mas ele não se lembrava de tê-la escrito.
A mensagem dizia:
"Se você estiver lendo isto, significa que se tornou exatamente o homem que eu tinha medo de ser."
Augusto sentiu um arrepio.
Continuou lendo.

"Você acredita que foi o trabalho, o dinheiro ou as escolhas erradas que destruíram sua vida. Está enganado."
Seu coração acelerou.
"O verdadeiro erro foi esquecer que ainda tinha tempo de voltar atrás."

Abaixo havia uma data.
O dia seguinte.
E um endereço.
Augusto passou a madrugada inteira tentando entender aquilo.
Na manhã seguinte, movido por uma curiosidade que não sentia havia décadas, foi até o local indicado.

Era um pequeno cemitério na periferia da cidade.
Confuso, caminhou entre os túmulos até encontrar o número anotado na carta.

Parou abruptamente.
Seu rosto empalideceu.
Diante dele havia uma lápide.
Nela estava escrito:

AUGUSTO FERREIRA
1985 - 2035

Era seu nome.
Sua data de nascimento.
E uma data de morte que aconteceria dali a poucas horas.

Augusto sentiu as pernas falharem.
Olhou ao redor.
Não havia ninguém.
Apenas o vento.
No canto inferior da lápide havia uma inscrição:
"Morreu aos cinquenta anos, mas deixou de viver aos vinte e cinco."
Então ele compreendeu.
Aquele túmulo não anunciava uma morte futura.

Anunciava uma morte antiga.
A morte de quem ele havia sido.
A morte dos seus sonhos.
Da sua coragem.
Da sua humanidade.
Pela primeira vez em décadas, Augusto sorriu.

Um sorriso triste, mas verdadeiro.
Arrancou a gravata.
Desligou o celular.
E saiu correndo.
Não para fugir da morte.
Mas para impedir que ela terminasse o trabalho que começara tantos anos antes.

Porque percebeu, finalmente, que a pior decadência humana não é quando a vida acaba.
É quando continuamos respirando depois que deixamos de viver.
E naquele dia, diante do próprio túmulo, Augusto nasceu pela segunda vez.

Escritora Luzia Couto
Lei 9.610/98
04/10/26
Ipanema Minas Gerais Brasil

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