A Nascente do Seu Antunes
Seu Antunes era fazendeiro há quarenta anos naquelas bandas de Ipanema. Tinha 200 alqueires, gado bom, café plantado morro acima. Mas tinha um orgulho só: uma nascente no alto da serra, que nunca secava, nem nos anos mais bravos de seca. Água limpa, fria, que cantava entre as pedras.
Quem cuidava da nascente mesmo era o Tião. Empregado da fazenda desde menino, filho de outro empregado. Conhecia cada raiz, cada curva da água como se fosse gente da família.
Um dia, Seu Antunes chamou Tião na varanda.
"Tião, tô pensando em fechar aquela nascente. Vou colocar manilha, fazer um açude grande lá embaixo, criar tilápia. Dá dinheiro. E ainda jogo um cano direto pra irrigar o café. Essa água solta aí tá se desperdiçando."
Tião ficou quieto. Mexeu no chapéu.
"Patrão, com todo respeito... se o senhor fechar a nascente, a água morre."
"Morre como? Água não morre, homem."
"Morre sim senhor. Nascente não é torneira. Ela precisa respirar, precisa da samambaia em volta, do mato que segura a terra, do bicho que bebe ali. Se o senhor abafar ela com cimento, ela vai procurar outro caminho e some. Já vi acontecer em fazenda de parente meu. Fizeram açude bonito, no primeiro ano cheio, no segundo, barro."
Seu Antunes ficou bravo. Achou que era teimosia de empregado.
"Então faz o seguinte: você cuida disso aí do seu jeito mais um ano. Se continuar essa aguinha fraca correndo pro mato, eu fecho."
Tião não discutiu. No outro dia subiu a serra. Não fez nada de grande. Só fez o que sabia: cercou a nascente com bambu pra vaca não pisar, plantou mais três mudas de ingá que trouxe da beira do rio, limpou as folhas velhas sem arrancar o limo das pedras, porque o limo segura a água.
Passou o ano. Veio a seca mais feia que Minas viu em vinte anos. O córrego lá de baixo secou. O açude do vizinho virou lama rachada. O café de Seu Antunes sentiu.
Numa manhã de poeira, Seu Antunes subiu a serra pra ver com os próprios olhos a nascente que ia fechar. E encontrou o Tião sentado numa pedra, com os pés dentro da água.
A nascente estava lá. Mais forte que nunca. Cristalina, cantando, descendo serra abaixo, molhando tudo no caminho, mesmo na seca.
Tião olhou pro patrão e disse:
"Tá vendo, Seu Antunes? Ela não tava se desperdiçando. Ela tava trabalhando. Enquanto a gente dormia, ela descia e guardava água lá no fundo da terra, pra nós beber hoje."
Seu Antunes sentou do lado do Tião. Tirou o chapéu. Pela primeira vez em quarenta anos de fazenda, entendeu.
Naquela semana, em vez de fechar a nascente, mandou cercar mais dez metros em volta dela. Botou uma plaquinha de madeira escrita à mão pelo Tião: "Aqui mora a mãe da fazenda. Não se mexe."
E até hoje, quem passa lá em cima, ouve a água cantando. E diz que nascente que é bem cuidada, quando um empregado e um fazendeiro aprendem a ouvir juntos, ela nunca seca.
Escritora Luzia Couto
Lei 9.610/98
27/10/26
Ipanema Mina Gerais Brasil
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