A Carta da Casa Nº 17
A chuva caía fina sobre a pequena cidade de Vale Escuro
Quando Laura Meneses recebeu a carta.
Não havia selo.
Não havia remetente.
Apenas seu nome escrito à mão numa caligrafia elegante e desconhecida.
Ao abrir o envelope, encontrou uma única folha amarelada.
Nela estava escrito:
"Se deseja saber a verdade sobre a morte de seu pai, vá à casa nº 17 antes da próxima lua cheia."
Laura sentiu um frio percorrer sua espinha.
Seu pai, Eduardo Menezes, havia morrido havia vinte anos.
A causa oficial fora um acidente de carro numa estrada de montanha.
Pelo menos era o que todos diziam.
A princípio, ela pensou em ignorar a mensagem.
Mas naquela mesma noite algo a perturbou.
Ao procurar antigas fotografias da família, encontrou uma imagem que nunca havia visto.
Seu pai estava diante de uma casa antiga.
Nos fundos da fotografia, quase apagado pelo tempo, havia um número preso ao portão.
17
Na manhã seguinte, Laura partiu para a região mais antiga da cidade.
A casa não foi difícil de encontrar.
Estava abandonada.
As janelas estavam fechadas por tábuas apodrecidas e o jardim havia sido consumido pelo mato.
Mesmo assim, algo parecia errado.
Era como se alguém ainda vivesse ali.
Ela empurrou o portão enferrujado.
O rangido ecoou pela rua vazia.
Ao entrar, encontrou camadas espessas de poeira.
Nenhum móvel.
Nenhum sinal de moradores.
Mas no segundo andar havia uma porta trancada.
Quando forçou a fechadura, descobriu um pequeno escritório oculto.
Nas paredes havia fotografias.
Dezenas delas.
Todas da mesma pessoa.
Seu pai.
Em diferentes anos.
Em diferentes lugares.
Como se alguém o tivesse observado durante muito tempo.
O coração de Laura disparou.
No centro da sala repousava um diário.
As páginas pertenciam a um homem chamado Samuel Torres
O último registro dizia:
"Eles descobriram que Eduardo sabia demais. Se algo acontecer comigo, a chave está sob o relógio."
Laura ergueu os olhos.
Havia um relógio antigo na parede.
Parado exatamente às 23h17.
Ao removê-lo, encontrou uma pequena chave de bronze.
Naquele instante ouviu um ruído vindo do andar inferior.
Passos.
Lentos.
Pesados.
Alguém acabara de entrar na casa.
O silêncio tornou-se insuportável.
Laura apagou a lanterna.
Escutou uma porta se abrir lá embaixo.
Depois outra.
Os passos começaram a subir a escada.
Degrau por degrau.
Sem pressa.
Como alguém que sabia exatamente onde ela estava.
O medo fez suas mãos tremerem.
Ela procurou uma saída.
Então percebeu uma passagem escondida atrás de uma estante.
Entrou rapidamente e fechou o painel.
Na escuridão, ouviu a porta do escritório se abrir.
Uma voz masculina falou baixinho:
— Eu sei que você encontrou o diário.
O sangue gelou.
Ela reconheceu a voz
Um homem respeitado.
Aposentado havia anos.
O diário mencionava seu nome diversas vezes.
Ela permaneceu imóvel.
Pela fresta da passagem viu o homem caminhar lentamente pela sala.
Depois ouviu algo que mudaria tudo.
— Vinte anos... e finalmente alguém voltou para procurar a verdade.
Otávio não parecia assustado.
Parecia aliviado.
Minutos depois, ele deixou uma pasta sobre a mesa e foi embora.
Quando o silêncio retornou, Laura saiu do esconderijo.
Dentro da pasta havia documentos antigos.
Relatórios alterados.
Depoimentos falsificados.
E uma gravação.
Nela, seu pai relatava ter descoberto um esquema de corrupção envolvendo pessoas influentes da cidade.
Dias depois daquela gravação, ele morreu.
Mas a morte não fora acidental.
Alguém sabotara seu veículo.
Laura passou horas lendo os arquivos.
Ao amanhecer, encontrou a última folha.
Era uma carta assinada por Otávio.
"Fui covarde. Eu sabia a verdade e permaneci em silêncio. Os culpados já morreram, mas a mentira continuou viva. Se está lendo isto, significa que encontrei coragem tarde…tarde demais."
Laura deixou a casa enquanto o sol surgia entre a neblina.
O mistério estava resolvido.
Ou pelo menos era o que pensava.
Ao passar pelo portão, notou algo preso à grade.
Outro envelope.
Novo.
Seco, apesar da chuva.
Dentro havia apenas uma frase:
"Seu pai não foi o único."
Sem assinatura.
Sem explicação.
Laura ergueu os olhos para a casa nº 17.
Pela janela do segundo andar, por um breve segundo, teve a impressão de ver uma silhueta observando-a.
Piscou.
Não havia mais ninguém.
Mas naquele instante compreendeu que certos mistérios não terminam quando encontramos respostas.
Às vezes, eles apenas revelam portas para segredos ainda maiores.
Escritora Luzia Couto
Lei 9.610/98
14/10/26
Ipanema Minas Gerais Brasil
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