O Coronel e a Terra Vermelha
Naquelas bandas, a terra era tão vermelha que tingia as botas, as rodas dos carros de boi e até a barra das roupas de quem atravessava a estrada.
De um lado do vale ficava a Fazenda Santa Augusta, cercada de pastos, cafezais e enormes mangueiras. Seu proprietário era o Coronel Anselmo Figueira, homem rico e respeitado, mas também temido.
Anselmo não possuía patente militar. Todos o chamavam de coronel porque, naquela região, sua palavra tinha peso. Quando ele chegava à pequena Vila das Palmeiras, as conversas diminuíam e muitos tiravam o chapéu em sinal de respeito.
Do outro lado do rio ficava a Fazenda Boa Esperança, pertencente ao Coronel Firmino Andrade.
Firmino e Anselmo eram rivais havia tantos anos que ninguém mais sabia explicar direito como a desavença começara.
Uns diziam que fora por causa de uma estrada.
Outros juravam que tudo começara por causa da divisa entre as fazendas.
Mas a velha Dona Alzira, que conhecia as histórias da região melhor do que ninguém, dizia:
“Começou por orgulho. E orgulho, quando cresce demais, ocupa mais terra que qualquer fazenda.”
A cerca
Certa manhã, Bento, um rapaz que trabalhava na Santa Augusta, encontrou homens colocando uma cerca perto do rio.
Correu imediatamente até a varanda da casa-grande.
“Coronel Anselmo! Os homens do Coronel Firmino estão mudando a cerca!”
Anselmo levantou-se devagar.
“Então Firmino resolveu comprar briga.”
Mandou preparar o cavalo.
A notícia atravessou a fazenda rapidamente. Os trabalhadores ficaram apreensivos. Todos sabiam que uma disputa entre dois homens poderosos raramente terminava prejudicando apenas os dois.
Quando Anselmo chegou ao rio, Firmino já o esperava.
“Essa terra é minha”, disse Anselmo.
“Era do seu pai”, respondeu Firmino. “Mas os documentos dizem outra coisa.”
Os dois discutiram durante horas.
Nenhum quis ceder.
Até que uma voz interrompeu a discussão.
“E o rio?”
Era Rosa, filha de um pequeno agricultor da região.
Os coronéis olharam para ela, espantados.
“O que tem o rio?”, perguntou Firmino.
Rosa apontou para a água.
“Vocês estão brigando por uma cerca e ainda não perceberam que o rio está secando.”
Todos ficaram em silêncio.
O ano da seca
Nos meses seguintes, quase não choveu.
O pasto perdeu o verde.
As plantações sofreram.
Os riachos diminuíram.
A água que antes parecia interminável transformou-se numa corrente estreita entre pedras e barro.
Pela primeira vez, as enormes propriedades dos coronéis pareciam pequenas diante da força da natureza.
Anselmo possuía terras.
Firmino possuía gado.
Mas nenhum dos dois possuía chuva.
Bento, Rosa e outros moradores começaram a cuidar das nascentes, limpar caminhos antigos da água e dividir os lugares onde ainda havia abastecimento.
Alguns trabalhadores da Santa Augusta ajudavam pessoas da Boa Esperança.
E os da Boa Esperança faziam o mesmo.
Quando Anselmo descobriu, ficou furioso.
“Quem deu ordem para ajudar meu adversário?”
Bento respirou fundo.
“Ninguém, coronel. A sede não pergunta de qual fazenda a pessoa veio.”
A resposta acompanhou Anselmo pelo resto do dia.
A grande tempestade
Então, numa tarde de novembro, o céu escureceu.
Um trovão sacudiu as janelas da casa-grande.
A chuva finalmente chegou.
Mas veio com tanta força que o pequeno rio começou a subir rapidamente.
Uma velha ponte, que ligava as duas propriedades, ameaçava desabar.
Do outro lado estava parte do gado de Anselmo.
E deste lado havia famílias de trabalhadores de Firmino tentando voltar para casa.
Os dois coronéis chegaram quase ao mesmo tempo.
Por alguns segundos, ficaram frente a frente.
Ali poderiam continuar sendo inimigos.
Ou poderiam simplesmente ajudar.
Anselmo pegou uma corda.
Firmino segurou a outra ponta.
“Vamos?”, perguntou Firmino.
Anselmo assentiu.
Naquela noite, coronéis, trabalhadores, homens e mulheres enfrentaram juntos a tempestade. Quando a madrugada chegou, todos estavam cobertos de lama, mas ninguém havia sido abandonado.
Uma nova divisa
Dias depois, Anselmo e Firmino voltaram ao lugar da velha cerca.
Rosa e Bento foram chamados para acompanhar a conversa.
Firmino colocou sobre uma pedra os mapas antigos das propriedades.
Anselmo ficou olhando para eles durante algum tempo.
Então disse:
“Passamos tantos anos discutindo para saber onde terminava a minha terra e começava a sua que esquecemos que todos dependemos da mesma água.”
A divisa foi finalmente acertada.
Mas outra decisão também foi tomada: uma parte das margens do rio seria protegida, e sua água deveria atender às famílias dos dois lados.
Dona Alzira, quando soube, apenas sorriu.
“Demorou, mas aprenderam.”
“O quê?”, perguntou Rosa.
A velha olhou para os campos.
“Que um homem pode cercar uma fazenda inteira. Mas não consegue colocar cerca na chuva, no rio nem na esperança.”
E, durante muitos anos, quem passava pela estrada de terra vermelha ainda podia ver as duas grandes fazendas.
As cercas continuavam lá.
Mas entre elas havia também uma ponte.
Escritora Luzia Couto
Lei 9.610/98
08/10/26
Ipanema Minas Gerais Brasil
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