O Menino do Violão e a Moça da Janela
Miguel tocava violão todas as tardes na praça da pequena cidade. Não era famoso, nem sonhava em ser. Tocava porque a música era a única forma que encontrava de dizer o que sentia.
Do outro lado da praça, na janela de uma casa antiga, Aurora costumava ouvi-lo em silêncio.
Eles nunca haviam conversado.
Miguel conhecia apenas seu sorriso tímido. Aurora conhecia apenas as melodias dele.
Durante meses, viveram aquele amor sem palavras.
Até que, numa tarde chuvosa, Aurora desceu pela primeira vez até a praça.
Miguel interrompeu a música.
Ela sorriu.
Ele sorriu de volta.
E naquele instante, ambos sentiram que já se conheciam há muito tempo.
Os dias passaram. Vieram os passeios, as conversas ao entardecer, os planos para o futuro e os beijos roubados sob a luz da lua.
Mas a vida, às vezes, muda os caminhos.
Aurora precisou ir embora para uma cidade distante.
No início, as cartas chegavam todos os dias. Depois, todas as semanas. Depois, apenas de vez em quando.
A distância começou a ocupar os espaços que o amor deixava vazios.
Os anos passaram.
Miguel continuou tocando violão na mesma praça.
Até que numa tarde de primavera, enquanto dedilhava uma canção antiga, viu uma mulher parada diante dele.
Era Aurora.
Os cabelos tinham mudado. O tempo marcara seus rostos.
Mas os olhos continuavam os mesmos.
Ela sentou-se ao seu lado e disse:
"Passei anos procurando um lugar que me fizesse sentir em casa. Hoje percebi que era você."
Miguel não respondeu.
Apenas segurou sua mão e voltou a tocar.
Porque algumas histórias de amor não terminam quando a distância chega.
Elas apenas esperam o momento certo para recomeçar.
Escritora Luzia Couto
lei 9.610/98
02/10/26
Ipanema Minas Gerais Brasil
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