CRÔNICA MESA DE DOMINGO


 Crônica

A Mesa de Domingo

A casa estava cheia.

Como em quase todos os domingos, filhos, netos, genros e noras ocupavam os lugares ao redor da grande mesa de madeira. Havia comida farta, risadas espalhadas e o inevitável barulho dos pratos se encontrando.

Para quem olhasse de fora, parecia uma família feliz.

E talvez fosse esse o problema.

As aparências costumam ser excelentes atrizes.

Dona Teresa observava tudo em silêncio. Aos setenta e oito anos, aprendera a enxergar aquilo que os outros não viam.

Via o filho mais velho conversando durante o almoço inteiro sem trocar uma única palavra verdadeira com o irmão.

Via a neta mexendo no celular enquanto o avô tentava contar uma história pela terceira vez.

Via uma filha perguntando à outra como estava, sem esperar pela resposta.

Todos estavam presentes.

Mas ninguém parecia realmente estar ali.

O curioso é que o desamor raramente chega fazendo barulho.

Ele não arromba portas.

Não quebra janelas.

Ele entra devagar.

Instala-se nas pequenas ausências.

Na ligação que não foi feita.

Na visita adiada.

No abraço substituído pela pressa.

No interesse que desaparece aos poucos.

Anos antes, aquela mesma mesa havia sido diferente.

As conversas atravessavam a tarde.

As preocupações eram compartilhadas.

As vitórias de um pertenciam a todos.

A dor de um era dividida entre muitos.

Agora cada pessoa parecia morar num planeta particular.

Falavam sobre trabalho, dinheiro, política, compromissos, viagens.

Mas ninguém falava sobre si.

Ninguém dizia:

"Estou cansado."

"Estou com medo."

"Preciso de você."

E assim as distâncias cresciam mesmo quando os corpos permaneciam próximos.

Em certo momento do almoço, Seu Joaquim, o patriarca da família, deixou cair um copo.

O silêncio que seguiu foi estranho.

Não pela queda.

Mas pela reação.

Os filhos se levantaram para limpar a água.

Os netos recolheram os cacos.

Em poucos segundos o problema estava resolvido.

Mas ninguém perguntou ao velho homem por que suas mãos tremiam.

Ninguém percebeu o constrangimento em seus olhos.

Ninguém reparou que ele havia envelhecido mais naquele ano do que nos dez anteriores.

Aquela cena ficou gravada na memória de Dona Teresa.

Porque ali estava o retrato de muitas famílias modernas.

As pessoas ainda ajudam.

Mas já não observam.

Ainda convivem.

Mas já não se conhecem.

Ainda se encontram.

Mas já não se alcançam.

Ao final da tarde, quando a casa ficou vazia, ela encontrou sobre a mesa um desenho feito pelo bisneto de sete anos.

Nele havia uma grande mesa cercada por pessoas.

Acima do desenho, uma frase escrita com letra infantil:

"Todo mundo junto."

Dona Teresa sorriu.

E depois sentiu vontade de chorar.

Porque o menino havia desenhado exatamente o que via.

Todo mundo junto.

Mas não necessariamente unido.

Existe uma diferença enorme entre as duas coisas.

Naquela noite, ela compreendeu algo que o tempo havia lhe ensinado.

O amor não desaparece de uma família de uma vez.

Ele se desgasta como uma fotografia antiga.

Pouco a pouco.

Quase sem ser percebido.

Até que um dia os rostos continuam os mesmos, mas a intimidade desapareceu.

E então restam apenas parentes.

Quando antes existia uma família.

Talvez o amor familiar não dependa de grandes declarações ou sacrifícios heroicos.

Talvez ele sobreviva nas coisas simples que andam se tornando raras:

escutar sem pressa, perguntar com interesse, lembrar de datas comuns, oferecer presença quando não há solução.

Porque, no fim, o que destrói muitas famílias não são as brigas.

São os silêncios prolongados.

As indiferenças acumuladas.

As demonstrações de afeto deixadas para depois.

E o mais triste é que quase sempre percebemos isso tarde demais.

Quando a cadeira de alguém fica vazia.

Quando o telefone já não toca.

Quando a casa que antes reunia tantas pessoas se transforma apenas em lembrança.

É nesse momento que entendemos uma verdade simples e dolorosa:

o amor que não é demonstrado corre o risco de ser confundido com ausência.

E nenhuma herança é mais pobre do que uma família que aprendeu a viver junta, mas esqueceu como amar.

Escritora Luzia Couto
Lei 9.610/98
16/10/26  Ipanema Minas Gerais Brasil

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